Do porão do navio negreiro à favela: pobreza, raça, território e estigma em três obras da literatura marginal brasileira.

Resumo

O presente ensaio tem por objetivo compreender os significados da pobreza, da raça e do território como fontes de estigma na sociedade brasileira. São considerados três momentos históricos distintos e três obras de referência da literatura marginal. Interessa a análise dos aspectos perenes e mutáveis do estigma. As obras consideradas são: Biografia de Mohammah Gardo Baquaqua (2016) do autor de mesmo nome; Quarto de Despejo: Diário de uma favelada (2014) de Carolina Maria de Jesus e O Sol na Cabeça (2018) de Geovani Martins. A base teórica para a identificação e análise do estigma é a obra do sociólogo Ervin Goffman, Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada (1963). A conclusão é pela existência, por um lado, de traços uniformes de estigma que atravessam o tempo e, por outro, de transformações nas formas de vivência, consciência e resposta ao estigma.

Palavras-chave: estigma, território, raça, pobreza; literatura marginal

From the basement of the slave ship to the favela: poverty, race, territory and stigma in three works of Brazilian marginal literature

Abstract

This article aims to understand the meanings of poverty, race and territory as sources of stigma in Brazilian society. Three distinct historical moments and three reference works of marginal literature are considered. The goal is to analyse the perennial and changing aspects of stigma. The works considered are: Biography of Mohammah Gardo Baquaqua (2016) by the author of the same name; Quarto de despejo: diário de uma favelada. (2014) by Carolina Maria de Jesus and O sol na cabeça (2018) by Geovani Martins. The theoretical basis for the identification and analysis of stigma is the work of sociologist Ervin Goffman, “Stigma: Notes on the Manipulation of Decayed Identity” (1963). The conclusion is that there are, on the one hand, uniform traces of stigma that cross time and, on the other, transformations in the forms of living, awareness and response to stigma.

Keywords: stigma, territory, race, poverty; marginal literature

Du sous-sol du navire négrier à la favela: pauvreté, race, territoire et stigmatisation dans trois ouvrages de littérature marginale brésilienne.

Résumé

Cet article vise à comprendre les significations de la pauvreté, de la race et du territoire en tant que sources de stigmatisation dans la société brésilienne. Trois moments historiques distincts et trois ouvrages de référence de la littérature marginale sont pris en compte. Il est intéressant d’analyser les aspects pérennes et changeants de la stigmatisation. Les travaux considérés sont: Biografia de Mohammah Gardo Baquaqua (2016) de l’auteur du même nom; Quarto de despejo: diário de uma favelada (2014) de Carolina Maria de Jesus et O sol na cabeça (2018) de Geovani Martins. Les fondements théoriques de l’identification et de l’analyse de la stigmatisation sont les travaux du sociologue Ervin Goffman, «Stigmatisation: remarques sur la manipulation de l’identité déchue» (1963). La conclusion est qu’il existe, d’une part, des traces uniformes de stigmatisation qui traversent le temps et, d’autre part, des transformations des formes de vie, de la prise de conscience et de la réponse à la stigmatisation.

Mots-clés: stigmatisation, territoire, race, pauvreté; littérature marginale

Introdução

O objeto deste estudo são as manifestações do estigma de raça, território e pobreza na sociedade brasileira ao longo do tempo. A observação desse fenômeno será realizada através das janelas que se abrem a partir das expressões literárias dos próprios marginalizados. Serão considerados, em especial, três autores negros que viveram a pobreza e experimentaram processos “similares, porém diferentes” de estigmatização e em distintos momentos históricos. Apesar da especificidade de cada narrativa – biografia, diário e coletânea de contos –, todas as obras apresentam descrições de cotidiano ricas em detalhes e originais em pontos de vista. 

A primeira obra analisada é Biografia de Mahomman Gardo Baquaqua: um nativo de Zoogoo, no interior da África, considerada a única autobiografia escrita por um ex-escravo que viveu no Brasil. O livro foi originalmente publicado em 1854 nos Estados Unidos e apenas ganhou a sua edição no Brasil, em português, no ano de 2017. O autor narra a própria captura em solo africano, a travessia do Atlântico em navio negreiro, o período que passou escravizado no Brasil, primeiro em Pernambuco e depois no Rio de Janeiro, e a sua fuga e libertação, anos mais tarde, em Nova York. Sua narrativa é reveladora da forma inumana como ele e os demais escravos eram vistos e tratados pela sociedade e pelos seus senhores. A relação de poder e dominação, que frequentemente explodiam em violência, castigos e torturas, deixaram em Baquaqua marcas físicas e psicológicas incuráveis.

O segundo livro é Quarto de despejo: diário de uma favelada, escrito por Carolina Maria de Jesus, mulher, pobre, negra, na década de 1950. Em seu diário, a autora descreve o cotidiano e a vida de uma catadora de papéis, mãe solo de três filhos, na favela do Canindé em São Paulo. Essa obra, já um clássico da literatura marginal brasileira, escrita pouco mais de meio século após a abolição da escravatura, apresenta um rico mosaico de estigmas e preconceitos não só vivenciados pela autora, por sua família e pelos demais moradores da favela, mas também praticados por eles, especialmente contra “nortistas”, baianos e ciganos. A fome é presença constante na narrativa e, de forma um tanto paradoxal, ao mesmo tempo que serve de cativeiro, impulsiona a protagonista a circular pela cidade e a interagir com as pessoas “normais”, a despeito de sua condição de “desacreditada” e de seus símbolos de estigma aparentes, desde as roupas até o cheiro.

Por último, discute-se a coletânea de contos O Sol na Cabeça de Geovani Martins, publicada em 2018. Esse autor contemporâneo compartilha com seus predecessores a origem de classe e racial e também escreve a partir da periferia, dessa vez a favela do Vidigal no Rio de Janeiro. Os temas de Martins são variados: drogas, amizade, família, escola, religião, desigualdade, violência, trabalho, relações entre os favelados e a gente do asfalto, entre outros. Aqui também o estigma e a segregação se transmutam em formas variadas de violência. Dessa vez, no entanto, a violência relatada é também praticada pelos estigmatizados, contra pessoas na mesma situação e contra os “normais”.

O uso da literatura marginal como substrato para a análise sociológica é um fenômeno que tem crescido nas últimas décadas. A coletânea de textos Os pobres na literatura, organizada por Roberto Schwarz (1981) é um marco na análise sociológica do tema da pobreza na literatura. O trabalho de Neves e Neves (2016), ao discutir a produção literária na periferia e o empoderamento cultural de seus sujeitos, argumenta que a ocupação de um espaço de enunciação ressignifica o conceito de marginalidade, esvaziando-o de seu caráter negativo e conferindo a ele uma dimensão construtora de identidade. Bittencourt (2015) analisa as formas como a obra de Reginaldo Ferreira da Silva, dito Ferréz, oferecem novas possibilidades de análise do “cotidiano incerto da vida do homem habitante da periferia”. Nascimento (2005), por sua vez, propõe novos parâmetros para a interpretação sociológica da literatura marginal a partir da análise das edições especiais da Revista Caros Amigos. A contribuição do presente artigo, portanto, diz respeito tanto ao conjunto de obras analisadas quanto ao marco teórico proposto.

O objetivo geral é analisar as manifestações e consequências dos estigmas de raça, território e pobreza a partir da forma como se apresentam no relato literário dos próprios estigmatizados: Baquaqua; Jesus e Martins. Para se proceder a essa análise pretende-se, durante o percurso, alcançar também os objetivos específicos de identificação das perspectivas de estigmatização e das identidades sociais e virtuais (desacreditados e desacreditáveis); dos símbolos de estigma (abominações do corpo; culpas de caráter individual ou estigmas tribais); das estratégias e habilidades de acomodação e enfrentamento do estigma (isolamento; resignação; cápsula protetora; adaptação heroica; grupos de apoio; aprendizagem de estilos de vida; entre outras).

A metodologia utilizada é a da leitura e análise de obras da literatura marginal que apresentam e abordam o cotidiano de autores que experienciaram os estigmas aqui considerados. O termo literatura marginal surgiu nos anos 70 no Brasil para designar as obras produzidas na periferia e por autores de fora do main stream literário. O período de repressão e o desinteresse das principais editoras fez com que esses autores desenvolvessem mecanismos próprios de produção e distribuição de conteúdos. Essa é uma literatura marcada também pela originalidade dos temas e da linguagem que, muitas vezes, não respeita as regras e padrões da norma culta. As três obras ora analisadas possuem todas essas características. No caso de Baquaqua e Jesus, os livros foram publicados respeitando e preservando as grafias e “erros gramaticais”. O livro de Martins, por sua vez, apresenta fusões deliberadas e originais entre a norma culta e a linguagem das ruas e becos das favelas.

O parâmetro teórico, metodológico e conceitual para a análise proposta é oferecido pelo sociólogo Erving Goffman, em seu clássico Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada (1988). Em sua obra, o autor norte-americano investiga a gênese de diferentes tipos de estigma, o sofrimento social causado pela situação, as identidades construídas/mobilizadas, as estratégias de acobertamento e/ou enfrentamento e a multiplicidade de interações possíveis entre “normais” e estigmatizados. Aquele é ainda um trabalho que conjuga as dimensões teórica e empírica. A forma como são analisados os inúmeros relatos e histórias de vida de estigmatizados, portanto, servem também de exemplo e guia para o presente artigo. A obra de Goffman é ponto de partida e baliza, mas não circunscreve toda a análise. A proposta é articular autores contemporâneos que também investigam as manifestações do estigma, muitas vezes em relação crítica com a obra de Goffman. Busca-se ainda compreender as formas particulares de transformação de estigma em formas variadas de violência, praticadas contra, entre e pelos próprios estigmatizados. 

Estigmas: origens, significados e consequências

A análise aqui proposta revela a perenidade das fontes de estigma, especialmente a pobreza, território e raça, mas revela também a ocorrência de transformações significativas nas formas de experimentar e enfrentar tais estigmas. Na concepção teórica de Goffman (1988), haveria três tipos ideais de estigma: i) estigmas tribais (quando há a presença de deformidades físicas); ii) abominações do corpo (quando há ‘vontades fracas’, ‘paixões tirânicas’, vício, alcoolismo, desemprego) e iii) culpas de caráter individual (estigma ligado à raça e que pode ser transmitido através da linhagem e contaminar toda a família). As obras analisadas focam situações onde os estigmas de tipo ii e iii são preponderantes. O vício, especialmente o alcoolismo, é um elemento que perpassa todas as narrativas. “Meus amigos de escravidão não eram tão firmes quanto eu, sendo muito dados à bebida” (Baquaqua, 2016: 55). “É sabido que pessoas que são dadas ao vício da embriaguez não compram nada. Nem roupas. Os ébrios não prosperam.” (Jesus, 2014: 17). “A família de Thaís é toda testemunha de Jeová, menos o pai, que é alcóolatra” (Martins, 2018: 90).

Em Baquaqua, a raça, a culpa de caráter individual, é também um elemento definidor do estigma. A humanidade é negada aos negros trazidos da África e quaisquer tipos de vontade, humanidade ou traço de personalidade e identidade lhes são suprimidos. Contra esses indivíduos, impotentes e impossibilitados de refletir ou lidar com os próprios estigmas, são praticados atos extremos de violência e tortura.

“[…] fui levado a casa de meu senhor que amarrou minhas mãos para trás, colocou-me de pés juntos, me chicoteou impiedosamente e me espancou na cabeça e no rosto com um pedaço de pau pesado, em seguida ele me sacudiu pelo pescoço e lançou minha cabeça contra os umbrais da porta que cortaram e machucaram a região das minhas têmporas. As cicatrizes desse tratamento selvagem são visíveis até hoje e assim permanecerão enquanto eu viver” (Baquaqua, 2017: 56)     

Segundo Goffman (1988: 15), nós normais “acreditamos que alguém com um estigma não seja completamente humano”. Em geral, os normais constroem uma teoria do estigma para explicar a inferioridade e o perigo representado pelo outro. Essa teoria é uma forma de racionalizar uma animosidade e transformar uma diferença, por exemplo de classe social, em uma forma de desigualdade naturalizada. Historicamente, o racismo tem se apresentado como uma teoria resiliente de construção de estigma. O tratamento desumano e a imagem de negros como animais é uma constante na prosa de Baquaqua. Quando descreve sobre o tratamento recebido no navio negreiro, o autor narra que “a repugnância e a sujeira daquele lugar horrível nunca serão apagadas de minha memória […]. Um grande número de escravos morreu […] um homem ficou desesperado […] foi jogado ao mar” (Baquaqua, 2017: 52). Adiante, sobre a experiência de ser comercializado, lembra que os senhores compravam e vendiam escravos “precisamente da mesma forma que os bois e cavalos são comprados num mercado” (Baquaqua,  2017: 54, grifo nosso).

Baquaqua denuncia com veemência a violência e os maus tratos sofridos e, por vezes, confessa a vontade de assassinar seu senhor e se suicidar em sequência. “Eu tinha pensamentos que iam me jogar na água, mas não me sentia plenamente satisfeito de ir sozinho; se pudesse ter o prazer de levá-lo junto comigo teria me jogado de bom grado” (Baquaqua, 2017: 62). Apesar do ódio sentido, porém, o ex-escravo nunca se refere aos seus algozes, suas famílias ou a qualquer pessoa branca de forma “estigmatizante” ou “contra-estigmatizante” ou negando-lhes humanidade. Os termos usados são sempre: meu senhor; senhor; homem; mulher e, mais tarde, para se referir ao missionário que lhe acolheu, “bondoso homem branco”. Por outro lado, quando fala de outros escravos, esses termos são substituídos por um léxico mais comum ao tratamento de animais. “O homem a quem fui novamente vendido era de fato muito cruel. Ele comprou duas fêmeas no momento em que me adquiriu” (Baquaqua, 2017: 56, grifo nosso).

As transformações estruturais pelas quais a sociedade brasileira passou na transição dos séculos XIX e XX, com a abolição da escravatura e a proclamação da república, pouco alteraram a experiência do estigma dos negros pobres. “Atualmente somos escravos do custo de vida [e] o custo de vida faz o operário perder a simpatia pela democracia” (Jesus, 2014: 112). A violência agora é também praticada pelos próprios estigmatizados, especialmente contra seus semelhantes, e o estigma é utilizado como escudo e ameaça. “Quando alguém nos insulta, é só falar que é da favela e pronto. Nos deixa em paz. Percebi que nós da favela somos temido.” (Jesus, 2014: 84). A violência se torna, simultaneamente, fonte e tática de enfrentamento do estigma. Ademais, os símbolos de estigma passam a ser não só sentidos, mas, de algum modo, também manipulados, especialmente contra os migrantes nordestinos e os ciganos. “Mil vezes os nossos vagabundos do que os ciganos […] Eles são nojentos.” (Jesus, 2014: 140). De todo modo, a experiência do estigma nos anos 1950, na forma como relatada por Jesus (2014) se releva uma experiência, sobretudo, resignada e passiva.

A autora nota a atitude de despreso dos não-pobres com relação aos moradores da favela onde vive. “Os visinhos de alvenaria olha os favelados com repugnância. Percebo seus olhares de ódio porque eles não quer a favela aqui. Que a favela deturpou o bairro. Que tem nojo da pobreza” (Jesus, 2014: 55, grifo nosso). A raiva de Carolina, diferente da de Baquaqua, é direcionada agora também aos detentores do poder político. “Eu quando estou com fome quero matar o Jânio, quero enforcar o Adhemar e queimar o Juscelino. As dificuldades corta o afeto do povo pelos políticos” (Jesus, 2014: 33). Apesar do ódio que sente, porém, a autora também não diminui ou trata de forma pejorativa as pessoas que, em sua visão, “praticam o estigma” ou que não compartilham da mesma situação socioeconômica, territorial ou de raça que a sua. Cabe notar que mesmo a antonomásia “vizinhos de alvenaria” revela um tratamento distante, porém respeitoso. É comum utilizar as expressões “Senhor” e “Dona” (com letras maiúsculas), acompanhadas pelos nomes próprios, quando se refere aos homens e mulheres que não vivem na favela.

A forma como Carolina Maria de Jesus descreve a favela e a forma como imagina a atitude dos vizinhos com relação à favela nos permite observar a simbiose existente entre a estigmatização dos pobres e de seu território. O estigma da favela é analisado no capítulo introdutório produzido por Alba Zaluar e Marcos Alvito (1999) para o livro que ambos organizaram: “Um Século de Favela”. A favela é vista como um ‘problema’ desde o momento em que surge (Zaluar e Alvito, 1999: 10). A imagem desses espaços urbanos varia ao longo da história, porém sempre dentro de um mesmo tom estigmatizante. Por vezes, é vista como um lugar apartado, uma “cidade dentro da cidade”; em outros momentos é percebida como um “lugar de desordem por excelência” e, mais recentemente, como um “covil de bandidos” ou uma “zona franca do crime”. Essas imagens, ressalvam os autores, estariam fortemente calcadas no senso comum, uma vez que a evidência mostra que a favela é um espaço de mobilização social e de produção de arte e cultura, não é um mundo de desordem, não está à margem e pode ter sua infraestrutura refeita e melhorada.

Para além das características da favela e da dose extra de estigma oferecido por ela, a pobreza experienciada por Jesus é a extrema pobreza e a fome é um elemento que amplifica a sensação do estigma diário de uma desacreditada e de seus pares. “Os lixeiros haviam jogado carne no lixo[…]. [Ele] há dois dias não comia. Acendeu o fogo e assou a carne[…] No outro dia encontraram o pretinho morto […] Foi sepultado como um Zé qualquer. Ninguém procurou saber seu nome. Marginal não tem nome”. (Jesus, 2014, 40, grifo nosso). Goffman (1988, 85) cunha o termo “encobrimento” para melhor compreender situações que “exigem que o indivíduo seja cuidadosamente reservado”. A situação limite da busca por comida no lixo é um exemplo eloquente da necessidade do uso de estratégias de disfarce e encobrimento. “As mulheres vasculham o lixo procurando carne para comer. E elas dizem que é para os cachorros. Até eu digo que é para os cachorros” (Jesus, 2014, 105). O que é indisfarçável é a experiência subjetiva da busca por comida no lixo, busca que subtrai a humanidade e que provoca a analogia inescapável com o comportamento animal. “O custo de vida nos obriga a não ter nojo de nada. Temos que imitar os animais” (Jesus, 2014: 112).

Nos contos de Martins (2018), os temas da fome e da escravidão desaparecem, mas a pobreza, a raça, o lugar e a violência emolduram as relações estigmatizantes entre, de um lado, desacreditados e desacreditáveis, e, de outro, normais. Agora os universos do morro e do asfalto se interpenetram para mostrar, com cores vivas, as distancias sociais que marcam e constituem a experiência do estigma.

“É foda sair do beco, dividindo com canos e mais canos o espaço da escada, atravessar as valas abertas, encarar os olhares dos ratos, desviar a cabeça dos fios de energia elétrica, ver seus amigos de infância portanto armas de guerra, pra depois de quinze minutos estar de frente pra um condomínio, com plantas ornamentais enfeitando o caminho das grades, e então assistir adolescentes fazendo aulas particulares de tênis. É tudo muito próximo e muito distante” (Martins, 2018: 12)

A existência de mundos tão diferentes revela ainda a necessidade que tem o estigmatizado, em muitos casos, de encobrir suas origens. Goffman (1988) denomina esse processo de “vida dupla”, pois o estigmatizado move-se em dois ou mais círculos, sendo que cada qual desconhece a existência do outro. Gilberto Velho (1981), em seu livro Desvio e Divergência, analisa as condições de vida dos moradores de um condomínio estigmatizado localizado em uma região nobre da cidade do Rio de Janeiro. São apartamentos que “já foram comparados à favela” e que são definidos como “sub-habitações”. Os moradores desses condomínios procuram, então, evitar oferecer o endereço de moradia no trabalho e em outras situações sociais, “disfarçando” ou “escondendo” seu local de moradia. Para as pessoas em situação de pobreza, não só o local de moradia, mas também o trabalho, muitas vezes informal e precário, pode ser fonte de constrangimento. É o que se nota na fala do jovem personagem do conto Sextou de Giovani Martins (2018):

No começo sentia muita vergonha. As pessoas passavam, parecia que elas sentiam sempre pena de mim, ou raiva, sei lá. Às vezes, quando eu via alguém chegando, fazia o contato visual, me preparava pra entregar o papel; nessas horas, de alguma forma, sentia que aquelas pessoas preferiam que eu não existisse. […] Outra vez, essa foi foda, o coração disparou, parecia até que ia sair pela boca. Tava vindo uma mina lá da Cruzada que eu tava desenrolando um tempão na internet. Já tinha dado o maior trabalho fazer a mina me dar confiança, se ela me visse… (Martins, 2018: 87)

No último conto do livro, Travessia, é possível notar o desprezo com relação ao estigmatizado, nesse caso o usuário de drogas pobre que é assassinado de impulso e por ter aparentado fazer um certo “cumprimento” associado a outra facção criminosa. O dono da boca, então, dá a ordem para o “bandido vacilão”: “não vou falar duas vezes que é pra sumir com essa merda desse corpo da minha frente” (Martins, 2018: 96). Assim como nos autores anteriores, a revolta e o ódio são também constantes nos escritos de Martins. O alvo agora, porém, não é nem o senhor de escravos e nem os políticos, mas a polícia. No conto Sextou, o autor conta a história de um adolescente que foi pego com cinco buchas de maconha e que, depois de ser extorquido pelos policiais e de ter pagado 100 reais de propina, “sentia uma raiva tão grande que, se pudesse, mataria os quatro ali, sem pensar duas vezes. Uma morte lenta e dolorosa, como merecem todos os vermes” (Martins, 2018: 96, grifo nosso).

Ao explicitar o sentimento em relação aos policiais, a citação antecipa também uma característica até então inédita na comparação com os autores anteriores, o uso de uma expressão que desumaniza o estigmatizador, fazendo dele também, até certo ponto, um estigmatizado. Cabe notar que a reversão do estigma é um fenômeno que já havia sido observado e descrito na obra de outros sociólogos. Abdi Kusow (2004), ao estudar a vivência do estigma entre os migrantes somalis no Canadá, observou que o uso da cor da pele como recurso de estratificação era algo incompreensível para eles. Os somalis, portanto, ignoravam a forma racista como era tratados por algumas pessoas e praticavam, eles mesmos, a estigmatização reversa contra os nacionalistas brancos canadenses. Retornando à literatura de Martins (2018), a palavra “verme” é utilizada em nove ocasiões ao longo do livro, em diferentes contos e sempre para se referir a policiais. Há um desprezo marcante na forma como diferentes personagens, especialmente traficantes e usuários, mas não só, se referem às forças de segurança.

No conto “A história do Periquito e do Macaco”, o tenente responsável pela segurança da favela, conhecido como Cara de Macaco (nota-se novamente a subtração da humanidade), era, nas palavras de um personagem, “um filho da puta que chegou metendo bronca[…] e o que dava mais ódio era que o bagulho dele não era nem pegar traficante não […] era pegar viciado” (Martins, 2018: 28). Certo dia o tenente “começou a esculachar o playboy” usuário de drogas, porém sem saber que “o pai do menó era juiz, desembargador, sei lá, um bagulho desses que deixa os polícia com o cu na mão” (Martins, 2018: 29). Para se “vingar” da situação, o tenente decidiu “esculachar” usuários da própria favela. Entre as pessoas torturadas pelo policial estava Buiú, irmão de leite de Periquito. Após esse episódio, Periquito, “maluco piroca das ideias”, organizou uma emboscada para assassinar o policial. Esse conto revela, portanto, o caráter extremamente violento que a resposta ao estigma pode adquirir.     

O ódio e a revolta, no entanto, não são direcionados exclusivamente aos policiais. Os hábitos, o comportamento e a fala dos jovens e adultos de classe média-alta do condomínio onde trabalhou o jovem do conto Sextou também o incomodavam profundamente.

Passei a odiar todos eles[…]. Tudo me irritava neles, o jeito que andavam, falavam, riam, tratavam os funcionários, mas o que eu mais detestava era quando reclamavam dos seus problemas: minha empregada faltou hoje, meu carro teve que ir pra oficina, não aguento mais fazer aula de inglês, o cachorro do vizinho latiu a noite toda” (Martins, 2018: 83)

Todo o ódio e irritação, também de forma inédita na comparação com os autores anteriores, pode se transformar, na cosmologia de Martins, em violência e agressão praticada pelo estigmatizado em direção ao estigmatizador. “Um aluno mais ou menos da minha idade veio falar uma gracinha pra mim, disse que eu parecia o personagem de um desenho animado. Falei pra ele: ‘tomar no cu, mermão. Sou teus amiguinhos de condomínio não!’” (Martins, 2018: 84). A postura do indivíduo pobre, portanto, é agora mais reativa e menos resignada. O ódio se transforma em violência física e simbólica, que pode ser praticada contra pessoas na mesma situação, mas que pode ser praticada inclusive contra indivíduos de raça e classes sociais diferentes.

A transformação do ódio em violência, no entanto, não modifica em nada a experiência subjetiva dos estigmatizados. Goffman (1988) teoriza sobre o “preço psicológico” e sobre as situações de auto depreciação e de isolamento às quais os estigmatizados estão submetidos. “A pessoa se auto isola, possivelmente se torna desconfiada, hostil, ansiosa, confusa” (Goffman, 1988: 22). A angústia e a solidão do estigma são elementos constantes nas três obras analisadas.

Enquanto estive na faculdade certos jovens cavalheiros que ali estudavam não me aceitavam totalmente por causa da minha cor […] não gostava de ser continuamente humilhado por eles, então passava boa parte das suas vergonhosas brincadeiras em silêncio (Baquaqua, 2017: 73)

Quem vive na favela deve procurar isolar-se. Viver só. […] Ninguém deve alimentar a ideia de suicídio. Mas hoje em dia os que vivem até chegar a hora da morte, é um herói (Jesus, 2014: 48)

Será que a verdade é que nascemos sozinhos e morreremos sozinhos, sem nunca permitir que o outro habite nossa intimidade? […] Nossa dor, nosso vício, nosso vexame, é tudo muito distante dos outros (Martins, 2018: 67)

Ao refletir sobre as origens da vergonha experimentadas pela população pobre, Vicent Goulejac (2009: 209) afirma que o que produz humilhação é justamente a “negação do status de humano, de semelhante, de cidadão, de sujeito”. A dignidade estaria relacionada, ao mesmo tempo, ao sentimento de respeito que a pessoa nutre por si mesma e ao respeito que as outras pessoas têm por ela. A pobreza e a miséria, na visão do autor, isolariam e alijariam o indivíduo de qualquer relação social normal que pudesse ter e, a partir da qual, pudesse construir as bases da dignidade. No limite, o olhar social degradante, estigmatizante e humilhante em direção àqueles que padecem devido não só à situação socioeconômica, mas também a de raça ou de território, invadem o ‘eu’, podendo transformar a própria personalidade dos indivíduos. “A pessoa pobre é obrigada a reconhecer-se também nessa imagem[…] internaliza essa visão de si mesma e termina por evitar todos os olhares, incluindo o seu próprio, para tentar escapar dessa estigmatização invalidante” (Goulejac, 2009: 149).  

A internalização ou incorporação do estigma não depende necessariamente da presença de um normal ou de um grupo de normais. Segundo Goffman (1988: 17), a interação com normais poderá reforçar a ‘revisão entre auto-exigência e ego’, porém o auto-ódio pode ocorrer até mesmo quando ‘apenas o indivíduo estigmatizado e o espelho estão frente a frente’. A experiência do estigma imprime nesses indivíduos traços próprios de reações psicológicas e de comportamento, gesto e fala. “A pessoa estigmatizada aprende e incorpora o ponto de vista dos normais” (Goffman, 1988: 41) No trabalho etnográfico que faz sobre os moradores de rua de São Paulo, Simone Frangella enxerga pessoas, em larga medida, “contidas em fronteiras de apatia, de vergonha e de solidão” (Frangella, 1999: 198). A antropóloga observa ainda que “quanto maior o grau de isolamento social, de distância dos serviços de atendimento, de sujeira aderida ao corpo, maior a ausência ou lentidão de movimentos” (Frangella, 1999: 194).

Quando discute sobre os modelos de carreiras morais, Goffman (1988) chama a atenção para a possibilidade de construção de uma “cápsula protetora”, elaborada pela família e pelos círculos mais próximos de amizade e vizinhança, e cujo propósito seria blindar o estigmatizado do desconforto e do julgamento de outros normais. A cápsula amenizaria a sensação de solidão e isolamento, ainda que não fosse suficiente para proteger o estigmatizado em todas as situações e por toda a vida. Segundo o autor, o ingresso na escola durante a primeira infância e o contato com pessoas de fora da vizinhança seriam exemplos de momentos críticos de exposição e sofrimento social. No caso das obras aqui analisadas, é possível notar que nem sempre pobres e favelados têm o privilégio de contar com cápsulas protetoras. Em muitas situações, são precisamente os círculos sociais mais íntimos que praticam o julgamento e reforçam o estigma.

Não apenas em Baquaqua, onde a violência e a desumanização estigmatizante são reiteradamente praticadas por seus donos, mas também em Jesus e Martins os círculos íntimos muitas vezes não oferecem qualquer tipo de proteção ou apoio psicológico. Após sofrer toda forma de humilhação e ameaça de seus vizinhos, contra si e contra seus filhos, Jesus (2014) conclui que a “favela é o pior cortiço que existe […] é o quintal onde jogam os lixos […] tenho impressão que estou no inferno” (Jesus, 2014: 26). Refletindo sobre a falta de solidariedade comunitária e a ausência de qualquer ajuda mútua, ela se pergunta: “por que será que o pobre não tem dó do outro pobre?” (Jesus, 2014: 81). Na narrativa de Martins ganha relevância a dificuldade de relacionamento no interior do próprio domicílio. “Minha convivência com meu padrasto não era fácil, às vezes a gente se falava numa boa, em outras parecia que só tinha espaço para um de nós dois dentro daquela casa” (Martins, 2018: 86).

Na ausência de cápsulas protetoras que ofereçam o mínimo de suporte para o desenvolvimento de personalidades resilientes, o estigmatizado deve construir sozinho seu repertório “habilidades sociais”. Segundo Goffman (1988: 30), o estigmatizado pode “utilizar sua desvantagem como uma base para organizar sua vida, mas, para consegui-lo, deve se resignar a viver em um mundo incompleto”. Nos casos de Baquaqua e Jesus, que narram suas próprias histórias de vida, esses autores, em larga medida, desafiaram o estigma para tornarem-se “heróis da adaptação”. Esses heróis são “oradores que apresentam o caso em nome dos estigmatizados (e que) estão sujeitos a recompensas públicas por provarem que um indivíduo desse tipo pode ser uma boa pessoa” (Goffman, 1988: 34). Seus livros (Quarto de Despejo e Biografia) são provas materiais e perenes da capacidade desses autores de se fazerem ouvir.

No caso dos personagens de Giovani Martins, e dos milhões de pobres, negros e favelados brasileiros estigmatizados, não há tantas saídas heroicas. Segundo Loic Wacquant (2007), a “marginalidade avançada” é um fenômeno cada vez mais visível nas sociedades contemporâneas e que condena enormes contingentes populacionais a viverem em zonas físicas e simbólicas de “não-direito”, zonas reservadas aos “párias urbanos”. O autor chama a atenção para a urgência de se colocar em marcha “novos mecanismos de incorporação social e política”, pois, caso contrário, a marginalidade tende a crescer e, com ela, a violência e a alienação.

A provocação de Wacquant (2007) encontra eco nos escritos de autores como Tyler e Slater (2018). Para esses autores é preciso repensar a sociologia do estigma e questionar a forma como essa prática social é instrumentalizada por indivíduos, comunidades e pelo Estado para produzir e reproduzir desigualdades. Tyler e Slater (2018: 737) lembram ainda que a estigmatização da pobreza, da raça e do território não são experienciadas de forma isolada, mas de forma interligada dando a tônica e aprofundando desigualdades. Nessa perspectiva, seria necessário (re)colocar a luta de classes e o racismo no centro das preocupações sociológicas a fim de compreender o estigma como uma tecnologia de poder.

 O estigma aparta pessoas e cria hierarquias sociais. A resposta do estigmatizado a esse estado de coisas, entretanto, tem se transformado ao longo do tempo. O conceito e as formas de manifestação e vivência do estigma não são algo a-histórico ou estanques, pelo contrário, estão em constante transformação.  O que há de novo na experiência do estigma, no caso dos brasileiros pretos, pobres e favelados, tal como narrada por Martins (2018) e na comparação com os autores anteriores, é a sua potencial transformação em violência, uma violência que explode em todas as formas e em todas as direções, inclusive contra os normais. Segundo Fragella (2009), os habitantes da rua, por exemplo, agridem outras pessoas quando “reagem a situações de humilhação”. A análise sociológica do estigma deve agora considerar, portanto, que o repertório de posturas dos estigmatizados não mais se circunscreve a atitudes como a autodepreciação, o encobrimento, o isolamento, o acobertamento ou a vida dupla. O estigmatizado também enfrenta, não raras vezes com muita violência, tanto os seus pares, quanto os normais.

Essa constatação gera consequências importantes para o todo social. Ao lançarem mão de estratégias violentas de enfrentamento do estigma, os estigmatizados se tornam também atores desviantes. Segundo Howard Becker (2008), a sociologia define o conceito de desvio como a infração de alguma regra geralmente aceita. O mesmo autor nos lembra também que “aqueles grupos cuja posição social lhes dá armas e poder são mais capazes de impor suas regras” (Becker, 2008, 30). Em outras palavras, são as mesmas pessoas consideradas “normais” que definem o estigma e que impõe as regras sociais. O estigmatizado, ao enfrentar a humilhação, torna-se agora duplamente rotulado, simultaneamente, desviante e estigmatizado. Essa situação enseja um ciclo vicioso, pois “a rotulação põe o ator em circunstâncias que tornam mais difícil para ele levar adiante as rotinas normais da vida cotidiana, incitando-o a ações anormais” (Becker, 2008: 181). Como consequência, temos um enfraquecimento progressivo do tecido social e a alimentação de um conflito cada vez mais insuperável entre, de um lado, “normais” e produtores de regras e, de outro, estigmatizados e desviantes.

Considerações Finais

O presente artigo buscou refletir sobre as formas pelas quais a pobreza, a raça e o território se transmutam em elementos estigmatizantes para as populações negras, pobres e faveladas no Brasil. Foram consideradas, como fontes de informações para o acesso a essa realidade, três importantes obras de autores da literatura marginal brasileira: Mohammah Gardo Baquaqua, Carolina Maria de Jesus e Geovani Martins. O trabalho do sociólogo americano Ervin Goffman sobre o estigma serviu de ponto de partida para a análise. Foi possível notar que os conceitos auxiliares cunhados pelo autor para a compreensão do estigma seguem sendo úteis para uma compreensão mais aprofundada acerca da experiência dos estigmatizados. Para além da contribuição de Goffman, entretanto, Tyler e Slater (2018) nos lembram que o estigma não deve ser considerado como um conceito a-histórico ou apolítico, pelo contrário, o estigma é uma tecnologia de poder utilizada precisamente com o intuito de desclassificar populações inteiras.     

Assim, analisar os modos de vida e a experiência cotidiana do estigma a partir dos pontos de vista dos próprios estigmatizados se apresenta como uma tarefa relevante para as Ciências Sociais. Nesse sentido, a literatura marginal oferece uma oportunidade analítica única. As obras aqui consideradas são múltiplas em suas perspectivas de gênero, em suas ambientações e, especialmente, em seus períodos históricos. Elas também apresentam desfechos distintos no que tangem as respostas ao peso do estigma, respostas que variam desde a mais absoluta resignação até a mais violenta reação. Apesar das diferenças, no entanto, as três obras possuem traços nítidos que as conectam e que descortinam os aspectos mais imutáveis do estigma, desde os seus elementos constitutivos, como a falta de recursos de toda ordem, a raça e o local de moradia, até as suas consequências mais perversas, como o sofrimento social e o isolamento. Finalmente, compreender as consequências do estigma e as mutações dessa experiência se configura como um primeiro e importante passo para uma análise mais ampla das relações sociais de poder e suas consequências.

Referências Bibliográficas

Baquaqua, Mahommah Gardo (2017), Biografia de Mohammah Gardo Baquaqua: um nativo de Zoogoo, no interior da África. São Paulo: Uirapuru.

Becker, Howard S. (2008), Outsiders. Estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar.

Frangella, Simone (2009), Corpos errantes: uma etnografia da corporalidade dos moradores de rua em São Paulo. São Paulo: Fapespe.

Gaulejac, Vicent (2009) Las fuentes de la verguenza. Buenos Aires: Mármol-Izquiero.

Goffman, Erving (1988) Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Editora Guanabara S.A.

Jesus, Carolina Maria de (2014), Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática.

Kusow, A. (2004), “Contesting stigma: On Goffman’s assumptions of normative order.” Symbolic Interaction, 179-197.

Martins, Geovani (2018), O Sol na cabeça: contos. Rio de Janeiro: Companhia das Letras.

Schwarz, Roberto (1983) Os pobres na literatura brasileira. São Paulo: BrasiliensE.

Tyler, Imogen; Slater, Tom (2018), “Rethinking the sociology of stigma.” The Sociological Review Monographs, 721-743

Velho, Gilberto (1981), Desvio e divergência. Rio de Janeiro: Zahar

Wacquant, Loic (2007), Los condenados de la ciudad. Buenos Aires: Siglo XXI.

Zaluar, Alba; Alvito, Marcos (1999), Um século de favela. Rio de Janeiro: FGV.

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