Patriotismo sensato

O amor à pátria anda em baixa no Brasil. A crise econômica e os escândalos intermináveis de corrupção são alguns dos fatores que fazem o brasileiro acreditar e gostar cada vez menos do próprio país. A história mostra que o patriotismo por aqui é algo que vem e vai e, em geral, somos incapazes de dosar bem esse sentimento. Em alguns momentos o ufanismo toma conta, em outros é o complexo de vira-latas que se impõe. Não só a inconstância, mas ambos extremos fazem muito mal ao país e devem ser evitados.

 

A relação do povo com o futebol, outrora símbolo nacional, ilustra bem o atual estado de coisas. Ao contrário da grande maioria dos países latinos que torcem e sofrem muito por suas seleções, nós brasileiros, já há algum tempo, perdemos o interesse pela amarelinha. O país se classificou para a Copa de 2018 de forma antecipada, com uma campanha histórica, e as pessoas não apenas não estão comemorando, como estão totalmente indiferentes ao fato. A empatia deu lugar a apatia. O esporte e a competição (Copa do Mundo) que, no exterior, asseguram enorme reconhecimento e a admiração pelo Brasil, por aqui não despertam mais tanta emoção. O carinho pela seleção canarinho deu lugar a uma paixão quase exclusiva pelos times, muitas vezes pelos times de outros países, apesar também da violência das torcidas e de todos os defeitos, escândalos e trapaças realizadas por seus dirigentes.

 

Essa falta de sentimento de pertencimento pátrio pode ser algo prejudicial ao país, pois reconhecer-se enquanto membro de algo maior é um sentimento poderoso, capaz de conectar pessoas, assegurar a solidariedade entre elas e difundir e reforçar valores, como aqueles que dizem que brasileiros são hospitaleiros e estão sempre dispostos a ajudar. Na ausência desses sentimentos, grassam o cinismo e a sensação de “cada um por si”.

 

O outro extremo é igualmente perigoso. O nacionalismo cego e exacerbado torna as pessoas mais intolerantes contra aqueles que não compartilham do mesmo sentimento, na mesma intensidade, e contra os nacionais de outros países. O show de horrores que foram as demonstrações de racismo e xenofobia contra as recentes ondas de imigração/refúgio de haitianos e venezuelanos para o Brasil são amostras do dano que esse tipo de patriotismo pode causar.

 

No próximo ano haverá eleições no Brasil e para que tomemos decisões sensatas será muito importante equilibrar o sentimento de nação na mente e no coração de cada um de nós. Não faltarão candidatos dispostos a explorar esse sentimento da forma mais tosca possível, apelando para um tipo de nacionalismo preconceituoso, danoso e destrutivo. Participar e exercer bem a cidadania é um passo importante para sairmos da crise e recolocarmos a política e a economia nos trilhos. Por sua vez, é o bom funcionamento das nossas instituições que nos fará acreditar e gostar mais do país e desenvolver um tipo de patriotismo mais coerente, equilibrado e sensato.

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