House of Cards

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Crédito da imagem: Revista Super Interessante

A série House of Cards (original Netflix) é um fenômeno de público e crítica no Brasil e no mundo. No enredo, ambientado na capital dos Estados Unidos, Washington, o político Frank Underwood (Kevin Spacey) e sua mulher Claire (Robin Wright) articulam a ascensão política do casal de forma inescrupulosa e cínica.  O roteiro é envolvente, os diálogos muito bem construídos e cada episódio parece ter vida e clímax próprios, apesar da concatenação de capítulos ser articulada de forma igualmente brilhante e meticulosa.

O lançamento recente da quarta temporada da série coincidiu com o atual momento de superaquecimento do clima político no Brasil e, logo, as comparações entre a ficção e a realidade se tornaram irresistíveis. Aproveitando a “deixa” proporcionada pelo teatro da política brasileira, os próprios produtores da série americana têm investido nas comparações. Em fevereiro, para promover o lançamento da atual temporada, Frank Underwood foi “capa” das revistas “Veja” e “Carta Capital”. Há poucos dias, tornou-se viral na internet um vídeo, aparentemente anônimo, que mimetiza a abertura da série com imagens de Brasília.dztf4uy6l8u1o60vgy0190clkEssas comparações surgem de forma espontânea e refletem, grosso modo, a visão de uma enorme parcela da população brasileira sobre o processo político. Segundo essa visão, os resultados políticos não são mais que frutos de algumas mentes criminosas que, tal como ventríloquos, manipulam a tudo e a todos em benefício próprio. É uma visão pobre, que ignora a complexidade do jogo político e o impacto das múltiplas regras e regimes na produção das justiças e injustiças sociais, políticas e econômicas.

O clamor pelo salvador da pátria, ou pelo mocinho hollywoodiano, ressalta um maniqueísmo até certo ponto ingênuo. Esse diversionismo nos faz esquecer, por exemplo, que o modelo de financiamento de campanha eleitoral, há muito em vigor, não só alimenta a corrupção generalizada, como resulta em uma brutal iniquidade das nossas chances de participação na esfera pública. Misturar ficção e realidade pode cristalizar a ideia de que os políticos da vida real são também encarnações do mal, impossibilitando o pensamento crítico e turvando a visão de uma realidade onde, em grande medida, somos nós, assim como eles, dentes de engrenagens muito maiores.

*O presente texto foi escrito a convite do querido amigo Joaquim Vela e estará disponível também em sua coluna na edição desta semana do jornal Brasil de Fato.

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