Prévias e democracia

democracia

Amanhã será um grande dia para os Estados Unidos da América. Os eleitores dos principais partidos políticos (Democrata e Republicano) irão às urnas em mais de 10 estados para escolherem seus candidatos a presidente. As prévias começaram no início do ano e continuarão após a Super Tuesday. Se amanhã os americanos consolidam a sua democracia, ontem foi também um grande dia para os brasileiros. O PSDB, maior partido de oposição do país, realizou eleições prévias para a definição do candidato a prefeito da maior cidade da América Latina, São Paulo. O caminho para a consolidação da democracia partidária não foi fácil nos Estados Unidos e não será fácil no Brasil, mas os resultados são animadores e servem de inspiração também para o futuro de Barroso.

Nos Estados Unidos a tradição de realização das prévias começou na segunda metade dos anos 1960. Até aquele momento não havia participação alguma dos eleitores na escolha dos candidatos. As prévias até aconteciam, mas serviam apenas para referendar os candidatos que já haviam sido escolhidos pelos caciques políticos. Por isso, eram chamadas, de forma debochada, de concursos de beleza.

Essa prática perdurou até 1968, quando as convenções do partido democrata terminaram em confusão. A divisão entre os eleitores e a elite partidária teve início com a discordância sobre a participação do país na Guerra do Vietnã (conhecida como Guerra Americana no Vietnã). O presidente democrata LBJ – Lyndon B. Johnson – (ex-vice-presidente de JFK, que assumiu após seu assassinato) enfrentou nas prévias dois senadores pacifistas, Eugene McCarthy e o próprio irmão de JFK, Bob Kennedy.  O presidente LBJ, temendo pela própria saúde e notando a adversidade do clima político, desistiu das prévias e seu vice-presidente Hubert Humphrey entrou na corrida. Em junho daquele ano, Bob Kennedy foi assassinado na festa em que comemorava a vitória nas prévias da Califórnia. Após esse evento dramático e apenas alguns meses depois, contrariando os anseios dos eleitores, os caciques do partido democrata escolheram Humphrey como concorrente oficial à Casa Branca, um candidato pró-guerra e que, curiosamente, não havia vencido as primárias em um estado sequer. Nas eleições gerais, Humphrey foi derrotado por Nixon, mas a atitude anti-democrata dos dirigentes do partido causou uma onda de protestos e revolta tão incisiva que modificou as primárias para sempre. Hoje, em ambos os partidos, o que conta é a vontade dos eleitores.

É verdade que os principais clãs continuam protagonizando a política americana, mas já não reinam absolutos. Em 2008, os eleitores democratas escolheram Obama como candidato e não a ex-primeira dama Hillary Clinton. Neste ano, os republicanos já eliminaram o candidato Jeb Bush (irmão e filho de ex-presidentes). As prévias obrigam os candidatos a calçarem as sandálias da humildade e a demonstrarem sua capacidade de liderança, para além do sobrenome. Na semana passada, durante o Town Hall (série de entrevistas com candidatos) na Carolina do Sul, ao ser questionada sobre o escasso apoio feminino que tem recebido até agora, Hillary Clinton foi categórica ao reafirmar a sua luta histórica pelos direitos das mulheres, inclusive o direito que elas têm de não a escolher como candidata. Se estivessem ainda na década de 1960, os americanos não teriam a oportunidade de confrontar e conhecer mais e melhor os seus próprios candidatos. A democracia de massas, tal como a conhecemos hoje, é uma invenção americana e as prévias, a partir de 1968, vieram para agregar muita qualidade a esse processo.

No Brasil não há tradição de prévias partidárias. O partido que mais se aproximou de um modelo de democracia interna foi o PT. Em 2002 o partido realizou eleições prévias para escolher seu candidato à presidência e Lula (que viria a ser o candidato eleito nas eleições daquele ano) saiu vitorioso contra Eduardo Suplicy. Em 2006, assim como é tradição também nos Estados Unidos, Lula assumiu “automaticamente” a candidatura como postulante à reeleição. Em 2010, porém, anulando qualquer possibilidade de prévias, Lula, monocraticamente, apontou para Dilma Rousseff como candidata à sua sucessão. A história é testemunha do perigo de uma decisão tão elitista. Embalado pela popularidade do ex-presidente, o país elegeu por duas vezes uma presidenta sem o mínimo das habilidades de negociação, oratória, liderança e comando exigidas pelo cargo. O momento de caos econômico e social que parece prenúncio de uma década perdida tem origem, também, no déficit de democracia do Partido dos Trabalhadores naquele momento decisivo das eleições de 2010.

Agora o PSDB, em uma atitude inédita para um partido igualmente opaco e sem nenhuma tradição de democracia interna, opta pelo caminho das prévias na maior cidade do país. Não assusta que o processo de ontem tenha sido um pouco tumultuado, afinal quaisquer mudanças de hábito ensejam insatisfação de alguma parte. A expectativa do partido, no entanto, é pela consolidação do processo e o Governador Geraldo Alckmin já anunciou o desejo de propor que a escolha do candidato a Presidência em 2018 se dê igualmente via prévias.

O cenário em Barroso não difere em nada do cenário nacional. Nunca houve e parece não haver interesse algum pela realização de prévias nos grupos políticos da cidade. O quadro das eleições deste ano, inclusive, parece já ter sido definido anos antes das convenções que ainda nem aconteceram. A única certeza que existe na cidade, neste momento, é que a partir de 1º de janeiro de 2017 teremos um novo e inédito prefeito. Não há favoritos e é impossível saber quem será o vitorioso, mas dada a continuidade das regras eleitorais no país e manutenção do instituto da reeleição, é provável que esse novo prefeito seja o candidato natural de seu grupo em 2020. Para o grupo que sair derrotado em 2016, por sua vez, haverá uma oportunidade incrível de reforçar suas bases, filiar novos quadros, ampliar horizontes e revolucionar o processo de escolha do candidato ou candidata para as eleições de 2020. A experiência consolidada dos Estados Unidos e as experiências incipientes do Brasil revelam que mais democracia faz muito bem aos partidos políticos e, consequentemente, faz muito bem aos países, aos estados e aos municípios.

Para saber mais:

Prévias no PSDB paulistano

Prévias de 1968 nos Estados Unidos (em inglês)

Bobby (Filme sobre o assassinato de Bob Kennedy)

Cobertura em tempo real das primárias americanas (em inglês) 

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