COMO OS HOMENS ESTÃO SENDO VÍTIMAS DO MACHISMO

Compartilho hoje o pensamento do meu amigo de fé, irmão e camarada Gabriel Corrêa. Ele fala da opressão que os próprios homens sofrem em uma sociedade machista. Originalmente o texto encontra-se publicado no portal recalculandoarota.com.br. Vale a leitura!

Você é machista? Ainda hoje essa pergunta gera desconforto e a resposta invariavelmente é controversa e pontapé inicial para discussões. Acho esse tipo de discussão muito revelador da maneira como lidamos com nossos preconceitos. Geralmente, quanto maior a convicção do sujeito de que não é machista, maior a chance de ele agir de forma machista. Se uma frase começa assim eu não sou machista, mas… Prepare-se que lá vem bomba!E isso vale para todos os nossos preconceitos:eu não sou racista, masEu não tenho nada contra gay, mas… machismo

Num post muito bacana em seu blog, Aline Valek define o machismo como uma cultura de dominação que oprime especialmente as mulheres, que nega a elas humanidade, que as trata como inferiores e incapazes. Nesse sentido, o machismo não é só uma questão individual, ele é primeiro um problema social. E foi nesse caminho que encontrei minha resposta provisória para aquela pergunta: Sim, infelizmente eu ainda carrego uma carga grande de machismo enraizada em mim, mas luto contra ela todos os dias, pois nossa cultura machista é abominável! Quem nunca?O primeiro passo para enfrentar um problema é reconhecê-lo. E precisamos combater nossos preconceitos, todos eles. Não só por respeito ao próximo, mas também porque são crenças limitantes, deixam nosso mundo menor.

Dito isso, não podemos parar por aqui. Nós homens também somos vítimas do machismo e precisamos ser feministas! Sim, nós também sofremos com essa cultura de dominação!Hãn? Como assim?Os homens são os privilegiados! Muita calma nessa hora. Eu concordo totalmente que é descabido comparar as opressões masculinas do gênero à opressão estrutural e sistemática sofrida pelas mulheres. A mulher é a vítima maior do machismo e creio que não podemos sequer imaginar o sofrimento que isso significa para elas, em inúmeras situações. Porém, isso não quer dizer que não possamos refletir sobre como essa cultura opressora também afeta a nós homens, principalmente se essa reflexão der uma ajudinha para combatermos juntos o machismo.

Na adolescência, vivendo aquela fase de descoberta da sexualidade, minha maior preocupação era reafirmar minha masculinidade a todo instante. Entre os amigos de escola, tudo era motivo de piadinhas que questionavam a masculinidade do outro, que hoje é o IgualdadeTextofamoso bullying. Aquilo era uma verdadeira opressão e, naturalmente, influenciou nossa maneira de ver o mundo, ainda em construção.

Por sorte, na época eu gostava de ler e veio parar na minha mão um livro chamado “O Mito da Masculinidade”, do psicólogo Sócrates Nolasco. Foi uma leitura transformadora, que tirou vários pesos das minhas costas.Para um adolescente cheio de dúvidas, foi importante ouvir que eu não precisava ser um ogro o tempo todo para ser homem. 

Assim, gostaria de compartilhar com vocês como enxergo a opressão que o machismo nos impõe em três situações:

AUTOCONHECIMENTO

Experimente falar em autoconhecimento, desenvolvimento pessoal ou inteligência emocional numa rodinha de amigos homens. E se quisermos falar de nossos sentimentos, nossas emoções e nossas fragilidades? Ih, não sei não, hein? Esse cara tá meio estranho…O machismo carrega em si o mito da masculinidade, forjado na ideia de que o homem é, antes de tudo, um forte! Dentro desse modelo,assumir suas dificuldades pessoais, falar de sentimentos e emoções ou qualquer coisa que possa soar como indicador de fragilidade é automaticamente proibido e eliminado do repertório masculino. Admitir que precisa de ajuda, buscar terapia ou algo parecido, nem pensar! Não pode haver dúvidas sobre nossa masculinidade. Com isso, os homens ficam presos em suas dificuldades e perdem as possibilidades extraordinárias e libertadoras do autoconhecimento, aprisionados em seus condicionamentos e afastados da sua essência. Quantos tem a coragem de recalcular sua rota?Já foi bem pior, mas ainda hoje é raro ver um homem que consegue lidar bem com suas questões pessoais e sentimentais.

RELACIONAMENTOS

Nossa cultura machista nos estimula a sermos atraídos por mulheres frágeis e homemmulherdependentes, também vítimas dessa cultura, que aceitam o papel privilegiado do macho na relação. Por mais que as mulheres venham transformando nossa realidade através de suas conquistas, não é fácil encontrar um homem que consiga encarar numa boa uma mulher livre, independente e bem resolvida.Outra punhalada do machismo na gente, pois muitos de nós não teremos a chance de conhecer a experiência sensacional de um relacionamento mais equilibrado, entre iguais, baseado em respeito e admiração. Dois anos atrás “levei um tapa” ao me dar conta disso na terapia: embora eu admirasse mulheres fortes e independentes, sempre me envolvia com mulheres que me permitiam a segurança do papel de provedor na relação. Hoje, penso que, se não trabalharmos aquela carga machista que recebemos, estaremos fadados a reproduzir relacionamentos mais do mesmo, com trocas muito mais pobres do que certamente teríamos com essas mulheres lindas e corajosas que estão aí conquistando o mundo!

AMIGOS GAYS

Aqui ainda temos uma eternidade para avançar. Se o cara não tiver a sorte de um amigo de infância ou das antigas revelar que é gay depois que a amizade já estiver consolidada, dificilmente um homem hétero terá uma amizade próxima com um gay. Temos uma dificuldade enorme de lidar com essa situação e infelizmente ainda não conseguimos tratá-la com naturalidade, na maioria das vezes.A opressão do machismo é tão forte que, se não a encararmos de frente, ela pode não só nos afastar de grandes amigos como também cortar qualquer possibilidade de conhecermos pessoas fantásticas por um detalhe besta, que é a forma que ela vive sua sexualidade. Falar assim é mais fácil do que vivenciar isso, pois ainda existe a ideia assombrada de que ter amigos gays coloca sua masculinidade em xeque.

É por essas e outras que os homens também são vítimas do machismo – e como sofremos (calados)! O que podemos fazer para viver melhor? Sejamos feministas, claro.Para além dos estereótipos, a Aline resumiu muito bem que feminismo é um movimento de pessoas que lutam contra essa opressão e a favor de um mundo mais justo e igualitário para todas e todos.

Não é uma luta de mulheres contra homens, mas sim de mulheres e homens contra uma cultura opressora. Portanto, homens que querem recalcular suas rotas, sejamos feministas! Precisamos ter a coragem de abrir mão de posições de privilégio e de combater malalamais ativamente o machismo que aparece na mesa de bar ou em qualquer outro ambiente masculino que frequentamos. Afinal, todos nós somos vítimas do machismo – mesmo que na maioria das vezes a gente nem perceba.

“Feminismo é uma outra palavra para igualdade” (Malala, Nobel da Paz 2014)

Para fechar, compartilho a sinopse do precioso livro que comentei, do Sócrates Nolasco. Como demonstração de gratidão por ter expandido as portas da minha percepção e por ter me trazido mais leveza, faço uma propaganda gratuita do seu livro publicado no longínquo ano de 1993 e ainda tão atual:

Ninguém nasce homem – torna-se homem. Quando partiu em busca da identidade masculina, o psicólogo Sócrates Nolasco descobriu muita frustração, repressão, críticas e dúvidas em relação ao modelo tradicional de homem, uma variação do Dom Juan sedutor ao pai provedor. A exemplo das mulheres, os homens modernos querem se liberar. Abandonar o complexo de Atlas, que os obriga a carregar o mundo nas costas, e aprender a se entregar. Trocar afeto com outros homens sem ter medo da homossexualidade. Participar do nascimento e criação dos filhos e afastar o fantasma do pai ausente. (…)

Foto Gabriel Corrêa

Gabriel Corrêa acredita que gente é pra brilhar. Anda vendo muito sentido em conectar autoconhecimento com política e criatividade.

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