A história da fábrica e a Fábrica da nossa história

Há algum tempo nota-se em Barroso uma tentativa de revisar e empobrecer a história do município, retirando o protagonismo de nossa gente e encarando momentos importantes como “fatos inevitáveis” ou como um exclusivo  movimento maior, de forças políticas, que sequer passava por aqui.

Hoje, quando comemoramos 60 anos de inauguração da Fábrica, marco fundamental da história econômica e social de Barroso e região, é possível identificar certa interpretação dos episódios daquele “não tão distante ano de 1955” que coloca no centro da ribalta personagens como Severino Pereira e Tancredo Neves, não sobrando aos barrosenses sequer o papel de coadjuvantes. Nessa visão, nosso povo surge como mero expectador das decisões superiores de caciques, empresários e políticos, e a cidade vira paisagem.

No principal livro de relatos da história de Barroso – Subsídios para a história do município (1979) – o autor e testemunha ocular daquela época, Geraldo Napoleão, apresenta um relato diferente. No livro é possível notar os esforços que foram empenhados pela Sociedade dos Amigos de Barroso na  luta pela instalação da indústria de cimento na cidade, revertendo a intenção inicial de construção em Sítio (distrito de Barbacena à época, hoje Antônio Carlos). Foram inúmeras reuniões e conversas com diferentes atores e em diferentes momentos, sempre acompanhados de um “memorial demonstrativo” que apresentava as vantagens de montagem da fábrica aqui, ao invés de Antônio Carlos.

“Aspectos positivos de localização de Barroso: o Grupo evitaria gastos astronômicos com transportes de matérias primas (calcário e argila); contaria com energia elétrica da CEMIG, que já estava construindo  a Central Elétrica de Itutinga; possibilidade de isenção de tributos municipais por dez anos, além de outras vantagens menos significativas.” (Napoleão, 1979)

A conquista desse investimento, que mudou pra sempre os rumos do desenvolvimento local, portanto, tem sim a impressão digital da sociedade de Barroso. Em momento algum a cidade assistiu pacata à chegada e ao desenvolvimento da fábrica.

O envolvimento da população sempre se fez notar. Anos mais tarde, na década de 90, uma nova “Sociedade dos Amigos de Barroso”, por meio de uma carta histórica, escrita pela pena do poeta Paulo Terra, se posiciona e cobra dos investidores suíços, agora donos absolutos da fábrica, o devido respeito ao nosso povo e ao meio ambiente. Dessa cobrança nasce o projeto Ortópolis. Já nos anos 2000 assistimos a outro exemplo inequívoco da força dos barrosenses, quando, após uma série de protestos da população contra a poluição de um córrego, foi imposto à fábrica, pelo Ministério Público, um Termo de Ajustamento de Conduta.

Para a nossa alegria, temos hoje na cidade um conjunto de historiadores, como os colunistas Wellington e Maurício, que, seguidores de uma epistemologia bastante rica, nos proporcionam relatos críticos e profundos e, não raras vezes, revelando personagens e olhares novos e interessantes sobre nosso passado e nosso presente.

A análise de qualquer fato social deve sempre buscar o equilíbrio entre a força das circunstâncias sociais e o esforço que fazem os indivíduos para canalizarem-nas ou para lutar contra elas. A história de Barroso, como a de qualquer outro município, é, sim, conseqüência das forças tectônicas maiores que se conjugam para gerar e anular oportunidades, mas é também a história de homens e mulheres, conhecidos e anônimos, que lutaram e lutam a cada dia pra fazer da nossa cidade o que ela é e o que gostaríamos que fosse.

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