Brasil: sociabilidades, percepções, práticas e vivências em uma sociedade desigual

Introdução

A proposta do presente trabalho é apresentar as contribuições do pensamento de Jessé Souza para a compreensão da desigualdade no Brasil. Em um primeiro momento abordaremos a posição crítica do autor frente à teoria emocional da ação. Na sequência, discutiremos sobre a influência e as contribuições da teoria de Bourdieu em sua obra e a adaptação que faz do conceito de habitus para a compreensão das sociedades periféricas, aquelas onde a exclusão pode ser entendida como um fenômeno de massa. Ao final, em seção própria, dialogando com a abordagem de redes em Eduardo Marques (2009), discutiremos sobre as contribuições potenciais da tese de Jessé para uma nova abordagem sociológica das redes sociais no Brasil, uma abordagem tridimensional de redes. Nas considerações finais retomaremos as linhas gerais do argumento e levantaremos questões para uma agenda de pesquisa que conjugue as contribuições de Jessé e a abordagem de redes sociais.

O esforço teórico de Jessé Souza é o de desvendar a gramática social brasileira, analisando as raízes da desigualdade no país e compreendendo a lógica de funcionamento de nossa sociedade. Na concepção do autor, problemas como a corrupção e a segurança pública seriam consequências, resultados de um modelo de funcionamento social e não fins em si mesmos. Na medida em que tais temas dominam o debate público, midiático, eleitoral e acadêmico, eles acabam servindo de espantalhos, desviando a atenção de todos e impedindo o enfrentamento das causas mais profundas da desigualdade e das injustiças sociais.

Na tentativa de embaralhar as cartas da teoria social brasileira, Jessé busca desconstruir e enfrentar o que, em sua própria concepção, seria o pensamento dominante na acadêmica e na sociedade. O que denomina “teoria emocional da ação” seria toda uma corrente de pensamento consagrada em autores clássicos do início do século XX, especialmente Gilberto Freire e Sérgio Buarque de Holanda, e atualizada na contemporaneidade por Roberto DaMatta, a quem Jessé reconhece como pensador mais influente no Campo das Ciências Sociais no país.

Na teoria emocional da ação, os brasileiros surgem como seres afáveis, sensuais e hospitaleiros e a malemolência ou o jeitinho passam a ser considerados uma espécie de estratégia para o trânsito no universo social tupiniquim. Nessa visão, as pessoas seriam semelhantes, partilhantes de uma cultura e um jeito de ser comuns. As relações interpessoais assumem o centro da análise e a habilidade em construir e manter laços se torna um ativo fundamental. O acúmulo de capital social, logo, aparece como a principal moeda para a conquista de oportunidades e ascensão. Em situações limite, esse capital pode, inclusive, surgir de forma violenta para (re)organizar as relações sociais e (re)compor hierarquias, é o famoso “você sabe com quem está falando?”.

O núcleo da crítica de Jessé à tese de DaMatta reside precisamente no papel e na centralidade do conceito “capital social”.  Segundo Jessé, a sociedade no Brasil se estrutura de tal forma que a distribuição desigual de capital social é uma consequência das desigualdades estruturais e estruturantes e não uma variável explicativa para tais desigualdades. Os seguidores da teoria emocional, ao super iluminar as relações pessoais, deixam à sombra a lógica profunda e perversa de cristalização da desigual distribuição dos demais capitais, como o econômico, simbólico e cultural.

Nesse ponto, ao enfrentar a tradição das ciências sociais brasileiras e na tentativa de refletir sobre os condicionantes mais persistentes das desigualdades no país, o autor lança mão de um conjunto de teses e ferramentas conceituais da sociologia de Pierre Bourdieu. O pensador francês, um dos mais importantes do século XX, ao refletir sobre classes sociais, sugere a superação do dualismo entre teorias objetivistas e subjetivistas. As tradições objetivistas observam as classes como coletividades estatísticas, objetivamente inscritas na realidade social. Por sua vez, as tradições subjetivistas observam as classes como a soma das classificações que os indivíduos realizam sobre si e sobre os demais.

Para superar essa dicotomia, Bourdieu afirma que as classes existem, de algum modo, duas vezes. A primeira delas é a existência material, registrada pela distribuição de bens e propriedades. A segunda é a existência no plano das classificações e representações, que são diferenciações simbólicas estabelecidas pelos próprios indivíduos e que têm por base o conhecimento prático, apreendido a partir da manifestação dos estilos de vida.  Esses dois modos de existência da classe não são independentes. Os símbolos de distinção – casa, carro, corte de cabelo, decoração, vestimenta, tipo de celular – são determinados duas vezes, tanto pelo sistema de “signos distintivos”, quanto pela correspondência na distribuição real e desigual desses bens.

Os estilos de vida, segundo Bourdieu (2013), por operarem via lógica de pertencimento/exclusão, exibem diferenças de capital (de toda ordem) “sob uma forma tal que escapam à brutalidade injustificável do fato, do dado bruto, para aceder a essa forma de violência desconhecida e denegada e, portanto, afirmada e reconhecida como legítima, que é a violência simbólica” [1].  As desigualdades são, portanto, justificadas e legitimadas. Esse processo de legitimação está intimamente ligado à própria dinâmica de socialização e partilha de valores.

Como forma de auxiliar na compreensão das dinâmicas de socialização, Bourdieu apresenta o conceito de habitus para dizer das formas como os indivíduos pensam e sentem o mundo e que os levam a agir. O habitus é simultaneamente estruturado, na medida em que sofre a influência do campo social e é adquirido na interação, e estruturante, pois também gera práticas e repercute na estrutura. O autor distingue ainda entre habitus primário e habitus secundário. O primeiro diz respeito aos elementos de socialização mais duradouros e compartilhados por todas as classes. O segundo representa uma camada extra de socialização e se relaciona com a distinção social e o “refinamento” do gosto.

Jessé Souza considera as reflexões de Bourdieu como ponto de partida válido para a análise das desigualdades. O autor brasileiro, entretanto, vai além do pensamento do teórico francês, adaptando o conceito de habitus e propondo uma explicação bastante original para o funcionamento das sociedades da periferia, aquelas onde a exclusão se manifesta enquanto fenômeno de massa, e especialmente para a compreensão do caso do Brasil. Para Jessé, o habitus precário estaria abaixo do primário e se configuraria enquanto uma forma muito específica de pensar e agir no mundo que não atenderia aos requisitos mínimos para que o indivíduo seja considerado enquanto produtivo e reconhecido na sociedade moderna.

Essa precariedade possui consequências políticas e sociais dramáticas, pois repercute em uma concepção de valores de diferenciação entre seres humanos. No desenrolar das tramas sociais, esses indivíduos são sistematicamente desclassificados, vivenciando uma rotina cruel de humilhação e aniquilamento de autoestima. As sociedades periféricas são, portanto, caracterizadas pela presença de “redes invisíveis” que geram hierarquias e mantém apartados cidadãos e subcidadãos. Desvendar os sentidos e significados dessas redes e compreender os processos de classificação/desclassificação seria, na perspectiva jesseniana, uma forma de diversificar e enriquecer a investigação social.

 

Por uma abordagem tridimensional das redes sociais

A análise de redes sociais tem se consolidado como um campo de conhecimento muito profícuo nas Ciências Sociais em todo o mundo. Essa modalidade de análise conta hoje com um amplo arsenal teórico e metodológico, inclusive com softwares[2] específicos para o desenvolvimento desse tipo de análise. A base conceitual para a investigação de redes sociais é a noção de que os indivíduos podem influenciar as configurações de tais redes, porém que sua posição na teia e o número e a “qualidade” dos nós de contato influenciam de maneira poderosa suas oportunidades e resultados.

Eduardo Marques (2009), pesquisando sobre as redes pessoais de 209 habitantes de locais de concentração de pobreza em São Paulo, submetidos a diferentes condições de segregação, além de 30 indivíduos de classe média, buscou analisar os efeitos diferenciados dos padrões de relação das pessoas em situação de pobreza. O autor observa que praticamente inexistem relações entre pessoas de classes distintas e que as redes dos indivíduos pobres são mais locais, menores e menos variadas. Além disso, os idosos vivendo nessas regiões possuem redes menores e, os jovens, redes mais locais. Em contraste, as redes da classe média são maiores, mais divesificadas e desterritorializadas – sem distinção dentro/fora. Essas redes se espalham pela cidade e, por vezes, até fora dela e mesmo no exterior.

Quando realiza o cruzamento das informações das redes com a situação de trabalho, o autor observa a existência de padrões muito bem definidos. As conclusões a que chega é que quanto maiores e mais diversificadas são as redes individuais, maior a propensão de se estar empregado, possuir carteira assinada e viver fora de condições de precariedade. O autor, portanto, busca estabelecer uma relação causal entre o tamanho e a diversidade da rede (capital social) e o acesso ao mercado de trabalho e qualidade de vida.

O trabalho de Marques, assim como daqueles pensadores da teoria emocional da ação, busca situar o capital social no centro da análise. O autor enfatiza a capacidade do indivíduo em criar e manter os laços sociais como um fator determinante para suas chances de sucesso no mercado de trabalho e fora dele. Por meio de uma investigação empírica sofisticada o autor mostra exemplos de sociogramas e apresenta correlações convincentes acerca do poder das redes em determinar resultados individuais.

Redes Sociais
Ilustração de um sociograma tradicional (exemplo comumente encontrado nos trabalhos de Eduardo Marques)

Analisando as conclusões de Marques à luz do pensamento de Jessé Souza é possível perceber que o autor negligencia uma série de variáveis estruturais que influenciam sobremaneira a posição dos indivíduos enquanto excluídos e desclassificados. O tipo de rede, a qual denomina local/pequena/não-diversificada, seria resultado de uma engrenagem social, estruturada em sua base para justamente impedir que as redes dos subcidadãos sejam configuradas de outra maneira. O capital social é, portanto, resultado de um modus operandi específico de sociedades como a brasileira.

As teses de Jessé são úteis não apenas para a reinterpretação da forma como se configuram as redes individuais, mas podem auxiliar também nas análises mais gerais e interclassistas de redes. Nos trabalhos de Marques, e tradicionalmente na análise de redes sociais, os sociogramas são sempre apresentados em formatos bidimensionais. As relações entre os indivíduos de uma sociedade, eventualmente relações entre cidadãos e subcidadãos, são representadas no mesmo plano, transmitindo e consagrando na análise uma falsa sensação de igualdade.

Partindo dos ensinamentos de Jessé e considerando as hierarquias e complexidades do edifício social brasileiro, é imperativo renovar as metodologias de análise de redes para incluir a possibilidade de representações tridimensionais. Os laços entre patrões e empregadas domésticas; motoristas e guardadores de carros; advogados e presidiários e um sem número de amigos, colegas de trabalho e vizinhos, classificados e desclassificados, não podem ser representados pela lógica bidimensional, falsamente horizontalizada. Incluir as classificações que os indivíduos fazem sobre si e sobre os que estão à sua volta no momento de construção de sociogramas tridimensionais contribui para desvelar as relações de poder e as estruturas que operam para excluir e humilhar a “ralé”.

 

Considerações Finais

 

As contribuições de Jessé Souza para a compreensão da desigualdade no Brasil são bastante originais e pertinentes. O autor busca desconstruir o que denomina “teoria emocional da ação”, tradicional nas ciências sociais brasileiras desde sua fundação. Na tentativa de oferecer um novo caminho para a compreensão do Brasil e de suas contradições, recorre ao pensamento de Bourdieu. Na apropriação que faz, adapta o conceito de habitus, cunhando uma nova categoria – habitus precário – para a compreensão das sociedades periféricas. As teses de Jessé tem o potencial de oxigenar as Ciências Sociais brasileiras, oferecendo novos caminhos analíticos para uma série de subcampos, inclusive e especialmente fundamentando uma nova abordagem sociológica das redes sociais, uma abordagem tridimensional de redes.

 

Desigualdade Brasil
Morumbi, bairro de São Paulo: ícone da desigualdade social brasileira (Essa foto se tornou uma imagem poderosa da desigualdade no Brasil – Autor Desconhecido)

Bibliografia

Bourdieu, P. (2013). Capital Simbólico e Classes Sociais. Novos Estudos CEBRAP , 105-115.

Marques, E. (2009). As redes importam para o acesso a bens e serviços obtidos fora de mercados? Revista Brasileira de Ciências Sociais , 25-40.

Souza, J. (2006). A gramática social da desigualdade brasileira. In: J. Souza, A invisibilidade da desigualdade brasileira (p. 396). Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil: UFMG.

[1] Bourdieu, P. (2013). Capital Simbólico e Classes Sociais. Novos Estudos CEBRAP , 105-115.

[2] O software Gephi é um exemplo.

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