Ditadura 50 anos – 1964-2014

golpe-militar

Entre os dias 31 de março e 1º de abril de 1964 o Brasil sofreu um dos mais dolorosos golpes de sua história. A moldura ideológica da guerra fria e o medo do comunismo, associados ao temperamento explosivo e extremo de gente como Brizola, fez com que setores civis e militares orquestrassem uma espécie de “golpe preventivo” para “salvar a democracia” e evitar o “golpe comunista”. Naquele mês de abril e naquele ano de 64 a intervenção militar foi amplamente apoiada e legitimada por políticos e governadores – como Magalhães Pinto de Minas Gerais e Carlos Lacerda da Guanabara – além de setores da igreja católica, empresariado e imprensa. O resultado foi uma noite tenebrosa de 20 anos de arbitrariedades e de falta de liberdade, tortura e mortes.

Hoje, 50 anos depois, vale rememorar o episódio histórico para que nunca mais a sociedade brasileira viva momentos de terror como aqueles. É fato que muitos dos que pegaram em armas contra a ditadura militar não o fizeram por apreço à democracia, mas sim para tentar implantar outra ditadura no país. Por isso, é fundamental compreender aquele período sem maniqueísmos e com um olhar multidimensional, considerando todas as suas idiossincrasias, polaridades e ideologias. Entender as condições de possibilidade que permitiram o golpe de 64 é fundamental para fortalecermos a democracia hoje. A lição da história é inequívoca: é preciso fortalecer as instituições democráticas brasileiras para que elas dêem conta de acomodar debates e consensos, liberdade e ordem, desenvolvimento econômico e justiça social.

A democracia exige muito de toda a sociedade, em especial exige paciência e perseverança. As armas utilizadas no ambiente democrático são as palavras e as batalhas são negociações. Nesse contexto, as conquistas podem ser difíceis e lentas, mas tendem a ser perenes e inequívocas. Não por acaso, os atores que sepultaram a ditadura e processaram a transição para a liberdade não foram guerrilheiros radicais, mas democratas convictos. Figuras como Ulysses e Tancredo pavimentaram os caminhos que a sociedade brasileira percorreria desde a década de 80 e até os dias de hoje. Não foi e não é um caminho fácil, é preciso ainda aprender muito e fortalecer a cultura democrática no país, mas é sem dúvida o melhor caminho entre os possíveis. Como certa vez disse Winston Churchill: “A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que têm sido tentadas de tempos em tempos”.

 

 

Como forma de saudar a memória daqueles que lutaram pacificamente contra a ditadura, compartilho um belíssimo documentário sobre o cartunista Henfil.

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3 Comments Add yours

  1. Rodrigo Graçano diz:

    Meus parabéns pelo texto, cada dia mais profundo e debatedor. Esse é um assunto que nunca deve cair no esquecimento da curta memória que o brasileiro insiste em ter.

    Ontem estava vendo o programa de Mirian Leitão, e tinha lá um sociólogo discutindo sobre o assunto da ditadura (infelizmente não me lembro do nome dele), mas uma pessoa muito sensata no que dizia então, a repórter fez a seguinte pergunta a ele: Dentre todos os erros cometidos pela ditadura, qual você acredita ter sido o pior deles? Ele respondeu: “bem, certo dia um presidente ditador veio à mídia se vangloriar que tinha mudado a moeda e todo o processo econômico do país sem precisar fazer nenhum estardalhaço, e que agora estava tudo bem e ninguém saiu ferido”.

    “Bem é justamente ai que existe o maior erro, pois colocar em prática uma medida tão importante como essa, precisa de fato de muito “estardalhaço”, de debate e de participação popular, só assim conseguiremos ter uma sociedade cada dia mais justa”.
    50 ano de ditadura, Viva a Democracia

    1. É isso mesmo meu amigo: viva a democracia!

  2. Eduardo Pinto diz:

    Brilhante texto, caro amigo!

    Importante salientar que qualquer tipo de ditadura é lamentável, independentemente de qual posição política!

    Seja de direita ou da esquerda, qualquer forma de governo que se sustente no autoritarismo, o resultado será um povo padecendo! Vide o que acontece hoje na Venezuela!

    No caso da ditadura militar brasileira, ela foi tão bem tramada e tamanho era o temor do Comunismo, que jornais apoiaram e até políticos altamente democratas como Ulysses e JK votaram, no Congresso, em Castelo Branco para presidente em 64, provavelmente ambos não sabiam o que estaria por vir!

    Nos cabe trabalhar sempre para fortalecer as bases da democracia, isso como dizia Churchill, enquanto ela for a melhor das opções!

    Parabéns caríssimo!

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