Mulher

As homenagens feitas às mulheres neste dia já se tornaram uma tradição no Brasil e no mundo. A data foi apropriada como uma ocasião rentável pelo comércio e a indústria, e os programas de TV não falam de outra coisa. Em geral, as homenagens destacam a beleza, a vaidade, a sensibilidade, a sedução, o mistério, a emoção, o papel de mãe, mulher… À primeira vista, tais adjetivos fortalecem o sentido da comemoração. Ao enquadrar as mulheres nestas molduras, porém, as homenagens prestadas subvertem o sentido mais profundo da data e repetem os modelos de dominação contra os quais as mulheres lutaram e continuam lutando.

O dia 8 de março foi oficializado pelas Nações Unidas como Dia Internacional da Mulher em 1975. A data faz alusão a um evento ocorrido há mais de cem anos antes, em 1857. Naquele ano, cerca de 130 tecelãs lutavam por melhores condições de trabalho em uma fábrica na cidade de Nova York. O que elas reivindicavam era a redução da carga horária de trabalho para 10 horas diárias (!) e a equiparação de seus salários aos dos homens. A luta daquelas mulheres corajosas foi reprimida com brutal violência e terminou de uma forma trágica. Foram todas elas trancadas no interior da fábrica, que foi propositadamente incendiada. Todas morreram carbonizadas.

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Tecelãs de Nova York

O episódio das tecelãs de Nova York é resultado de uma sociedade que se organiza a partir da centralidade do homem, uma sociedade machista e patriarcal, que não quer saber de igualdade e que relega à mulher o papel de estandarte de beleza e sedução. De lá pra cá, é verdade, muita coisa mudou e as mulheres conquistaram importantes espaços de poder. As desigualdades, porém, permanecem e são disfarçadas pelo tipo de homenagem que insistimos em prestar a essa figura idealizada e distorcida de mulher.

As diferenças estão por toda parte. Os dados do Censo 2010 mostram que o rendimento das mulheres é 74% do rendimento dos homens e que o número de horas trabalhadas (incluindo a dupla jornada) é 6 horas semanais superiores. As estatísticas recentes do IPEA mostram que o Brasil registrou, entre 2011 e 2012, 16,9 mil feminicídios, ou seja, “mortes de mulheres por conflito de gênero”, especialmente em casos de agressão perpetrada por parceiros íntimos. O número de estupros também aumentou para 26,1 para cada 100 mil habitantes e o país é hoje o 12º colocado no ranking da violência contra a mulher.

Em Barroso não é diferente. Em artigo de 2011 (http://goo.gl/B2p3mz) busquei mostrar que a conquista de poder político não significou melhoria nas condições de vida das mulheres barrosenses. Os episódios recentes de violência sugerem que a situação pode ter piorado. Nos últimos meses foram repetidos episódios de agressões, mortes e estupros, em grande parte dos casos o componente da diferença de gênero foi central. No carnaval deste ano a Prefeitura, em atitude digna de nota, decidiu enfrentar a questão e promoveu uma divulgação intensa pela denúncia dos casos de violência contra a mulher.

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Campanha contra a violência de Gênero – Entre homem e mulher, só o coração pode bater forte

A sociedade precisa enfrentar essas questões de frente, sem tabus. É inadmissível que continuemos a conviver com essas situações de discriminação, desigualdade, violência e exclusão. Ao celebrarmos o mês da mulher, precisamos analisar as homenagens que estamos prestando. É preciso refletir se estamos enfrentando essas questões e construindo uma sociedade mais justa e igualitária, com direitos e deveres idênticos para homens e mulheres, ou se estamos repetindo o discurso da mulher dona da beleza e rainha do lar.

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