Sobre JMJ e Religião

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Na última sexta-feira (19) participei de um debate sobre a Jornada Mundial da Juventude na Rádio Inconfidência em Belo Horizonte.

O programa pode ser ouvido, na íntegra, a partir deste link:

https://soundcloud.com/user93706634/dessir-e-miranda-a-vinda-do

Creio que um pouco da visão por mim exposta no debate foi fruto da influência do discurso do Presidente Obama neste tema. Busquei argumentar sobre a importância dos líderes religiosos, sobretudo os que atuam na esfera pública e os eleitos, “jogarem” conforme as regras do jogo democrático e exporem seus argumentos não a partir da evocação da vontade divina, mas de forma racional e ponderada. Como considero muito relevante este discurso do Obama, busquei traduzi-lo. De antemão peço desculpas pelos erros de tradução que possa ter cometido e agradeço a leitura e os comentários de todos.

Os perigos do sectarismo são maiores do que nunca. Nós não somos mais uma nação cristã, pelo menos não somente, somos também uma nação judaica, mulçumana, budista, hindu e uma nação de não crentes. E mesmo que fossemos apenas uma nação cristã, se tivéssemos expulsado todos os não-cristãos da América, qual cristianismo estaríamos ensinando nas escolas? Seria o cristianismo de James Dowson ou Al Sharpton? Quais passagens estariam guiando nossa política pública? Seria Levítico quando diz que a escravidão é ok? Ou iríamos com Deuteronômio, quando diz “apedreje seu filho” como sinal de fé? Ou ficaríamos com o sermão da montanha, em uma passagem que é tão radical que é duvidável que nosso Departamento de Defesa sobreviveria à sua aplicação? Portanto, antes de sermos levados, leiamos nossa bíblia agora.

Isso me leva ao meu segundo ponto. Democracia demanda que a motivação religiosa traduza suas preocupação em termos universais ao contrário de sentimentos específicos à religião. O que quero dizer é que sejam feitas propostas sujeitáveis à argumentação e significantes à razão. Por exemplo, se eu quiser lutar por uma legislação que busque o banimento do aborto, não posso me basear nos ensinos de minha igreja ou evocar a vontade de Deus. Eu preciso explicar porque o aborto viola princípios que são caros às pessoas de todas as religiões, incluindo as pessoas sem religião. Isso vai ser difícil para algumas pessoas que acreditam na infalibilidade da bíblia, como muitos evangélicos.

Em uma sociedade como a nossa, entretanto, não há escolha. A política se baseia na nossa capacidade de persuadir baseados em uma realidade comum, envolve transigência, a arte do que é possível. Em algum nível fundamental a religião não permite transigência, pois é a arte do impossível. Basear as nossas políticas a partir da falta de transigência seria algo perigoso. Deixe-me dar um exemplo. Nós todos sabemos a história de Abraão e Isaac. Abraão foi orientado por Deus a sacrificar seu próprio filho. Sem argumentar ele leva Isaac ao todo da montanha, ergue sua faca e prepara para agir. Neste momento Deus informa, por meio de um anjo, no último minuto, que Abraão passou no teste de devoção.  Em nosso caso se, ao sairmos desta igreja, observarmos Abraão no topo de um prédio erguendo seu punhal nós iríamos, pelo menos, chamar a política e esperar que o Conselho Tutelar tome Isaac de Abraão. Nós faríamos isso porque nós não ouvimos o que Abraão ouve, não vemos o que Abraão vê, por mais verdadeiras que essas experiências possam ser. Assim, o melhor que podemos fazer é agir de acordo com aquelas coisas que todos nós vemos e enxergamos, com base nas leis comuns e na razão básica.

Por último, qualquer reconciliação entre fé e pluralismo democrático requer um senso de proporção e isso serve para ambos os lados. Mesmo aqueles que clamam pela infalibilidade da bíblia fazem alguma distinção nos índices das escrituras, tendo a noção de que algumas passagens sofreram alterações e afirmando que a crença em Deus ou a crença na divindade de Cristo são os elementos centrais à fé cristã, enquanto outras passagens são específicas de culturas e acomodadas para os tempos atuais. O povo americano, intuitivamente, compreende isso. É por isso que a maioria dos católicos pratica o controle de natalidade e alguns que se opõem ao casamento gay nunca propuseram uma emenda constitucional para bani-lo. As lideranças religiosas precisam compreender, eles não precisam aceitar tal conhecimento encapsulando seu rebanho, mas eles deveriam reconhecer a sua existência guiando sua política. Agora, esse senso de proporção deveria também guiar aqueles que policiam os limites entre Igreja e Estado. Nem toda menção a Deus feita em público significa um tijolo no muro da separação, o contexto deve ser levado em consideração. Um grupo de orações em uma universidade não deveria ser uma ameaça, precisa ser encarado como um grupo qualquer, como um grupo de republicanos, por exemplo, como grupos de diferentes visões.

Nós temos um trabalho a fazer, mas eu estou esperançoso que conseguiremos preencher a lacuna e superar os preconceitos que todos nós, em algum nível, trazemos a esse debate. Eu acredito que muitos americanos crentes gostariam que isso acontecesse. Não importa o quão religiosas as pessoas possam ser, ou possam não ser, ninguém quer ver a fé servindo de ferramenta para ataques. Elas (as pessoas) não querem ver a religião para dividir, elas estão cansados de pessoas que entregam ódio em um sermão porque, no final, não é assim que elas vivenciam a fé em suas próprias vidas.

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2 Comments Add yours

  1. Roberto Moura diz:

    Como foi dito no texto; “antes de sermos levados, leiamos nossa bíblia agora”. A própria anuncia; “Meu povo foi destruído por falta de conhecimento. “Uma vez que vocês rejeitaram o conhecimento, eu também os rejeito como meus sacerdotes;”
    (Oséias 4:6)
    Acredito na infalibilidade da bíblia! Mas, o conceito religioso do cristianismo vai além da crença baseada na Bíblia, a compilação de livros sagrados é apenas o norte, na qual o cristão ergue sua fé e constrói seus princípios, a Bíblia não deve ser a única fonte de conhecimento para alcançar um modo de vida aproximado do correto aos olhos de Deus, trazendo este princípios para o período contemporâneo afirmo que a religião está incutida em algumas decisões políticas.
    Sendo assim, concordo com o trecho em que diz “outras passagens são específicas de culturas e acomodadas para os tempos atuais” . Atualmente, vejo vários líderes políticos adotando uma forma governamental de Estado Laico, evitando a intervenção da religião nos assuntos políticos e culturais, isso devido ao fato de não haver uma religião predominante, mas, não deveria ser sempre dessa forma. Não somos uma nação cristã, mas acredito no costume ecumênico, como um dos elementos de arguição de assuntos políticos quando cabível.
    “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas;” (Rm 13.1,2)

    1. Roberto,
      Muito obrigado por mais este comentário. Sempre colocações muito instigantes.
      Abraço,
      Antônio Claret

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