125 anos depois

escravo_13

“Branco, se você soubesse o valor que o preto tem.
Tu tomava um banho de piche, branco, e ficava preto também.”

(Ilê Aye – O Rappa)

Neste dia 13 de maio comemora-se a abolição da escravatura em nosso país. Se analisarmos o episódio e suas circunstâncias, porém, perceberemos que, na verdade, não há muito a se comemorar. Pelo contrário, há muito a se refletir e ponderar, tanto no que se refere à situação do negro no Brasil contemporâneo, quanto no que tange à política e às instituições.

No final do século XIX o Brasil era um dos poucos países a ainda possuir sua economia fundamentada na mão-de-obra escrava. O país protelava a abolição com uma série de medidas paliativas, como a Lei do Ventre Livre e a Lei do Sexagenário. No plano interno a questão escrava foi se transformando de forma lenta, gradual e “cordial”. Nas ruas das maiores cidades já conviviam negros alforriados, escravos e fugidos. Alguns senhores de engenho se anteciparam e começaram a substituir a mão-de-obra escrava por assalariada. Na imprensa e na esfera pública a voz abolicionista, com o passar do tempo, conquistou o quase consenso. No plano internacional o Brasil se transformava a cada dia em um pária do mundo livre e democrático. Após 1845 o tráfico negreiro se tornou ilegal pela legislação britânica, país detentor da hegemonia à época. O Bill Aberdeen (Slave Trade Suspection Act) proibia o comércio de escravos entre África e América.

Foi, portanto, somente após se transformar em uma absoluta excrescência no ordenamento social brasileiro, somente após todos os subterfúgios, que a escravidão, de forma retardatária em relação ao resto do mundo, foi abolida de fato. Esse passado cruel repercute até hoje, 125 anos depois. Não é por nada que os negros são a minoria nas universidades e a maioria nas cadeias, a minoria nos bairros de classe média e alta e a maioria nas favelas. Não é por nada que os negros são discriminados, que sofrem preconceito, que são alvo de piadas infames, que não desfrutam das mesmas oportunidades que os brancos. Tudo isso é consequência de uma sociedade que por séculos se acostumou a subordinar seus pares pela simples diferença na cor da pele.

O Brasil de hoje lembra muito o Brasil do final do século XIX e o processo de exclusão e de desigualdade de direitos não se limita aos negros, atinge também índios, homossexuais, pobres, ciganos, detentos e ex-detentos, entre muitos outros grupos sociais marginalizados. Assim como no passado, o país necessita de uma série de “abolições” para garantir mais igualdade. Assim como no passado, o país segue refém de grupos e indivíduos que se pautam pelo conservadorismo, pelos fundamentalismos de toda ordem, sobretudo religiosos, e pela manutenção do status quo. Enquanto a sociedade brasileira continuar a se manifestar através de seu conservadorismo, espelhando um Parlamento à sua imagem e semelhança e que se nega a falar e ouvir a voz da justiça social, o Brasil continuará como um país retardatário no mundo.

Anúncios

2 Comments Add yours

  1. Roberto Moura diz:

    “Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos haverá guerra”

    Bob Marley.

  2. Fatima diz:

    GOSTEI MUITO E A REALIDADE DE HOJE,GOSTARIA QUE TODOS BRASILEIROS QUE FOSSE RACISTA PODESSE VER ESTA MENSAGEM.

Obrigado pelo seu comentário!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s