Osama, ética e política

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Artigo publicado originalmente no portal barrosoemdia.com.br em maio de 2011

A notícia da morte de Osama bin Laden correu mundo essa semana, despertando o orgulho norte-americano, impulsionando a popularidade de Barack Obama e gerando declarações entusiasmadas de lideranças políticas, jornalistas e formadores de opinião em todos os países. O êxtase pelo momento, entretanto, eclipsou uma problemática mais profunda, que envolve as relações entre países e o direito internacional.

A operação do último domingo tinha o propósito explícito de assassinar Osama. Não existia a orientação da captura e a casa em que ele se escondia só não fora bombardeada pelo receio de se causar um estrago ainda maior, eliminando as provas e tornando impossível o reconhecimento do corpo do terrorista. Na questão do reconhecimento, o tiro ainda saiu parcialmente pela culatra, haja vista que o estrago feito pelos ferimentos a bala gerou o receio em se divulgar as fotos de Osama morto.

A tática de eliminação do inimigo terrorista não é nenhuma inovação americana. A mesma já havia sido utilizada pelo serviço secreto israelense (Mossad) logo após os atentados das Olimpíadas de Munique em 1972. A novidade foi a repercussão do fato, pois todos os países europeus e as Nações Unidas sempre foram enfáticos em condenar esse tipo de operação, considerando-as como ilegais, injustificáveis e contraproducentes. Dessa vez, ao contrário, não houve nenhum líder que fizesse acusações à estratégia americana.

Na realidade, o assassinato de líderes (target killing) é uma tática que compõe todo um arsenal de estratégias que, por sua, vez, definem a Guerra ao Terror. Essa guerra já custou aos americanos mais de um trilhão de dólares e causou ao mundo árabe a morte de dezenas de milhares de pessoas ao longo dos últimos 10 anos. Nesse tempo todo não houve país que, enfaticamente, condenasse o comportamento americano.

Do ponto de vista político, essa é uma situação recorrente no cenário internacional desde 1648, quando começaram a se formar os Estados Nacionais. A partir de então, pelo acordo de soberania, vigora o princípio da não intervenção entre Estados. Assim, ainda que ocorram tentativas centenárias de se estabelecer parâmetros internacionais de moral e conduta, e apesar de existirem instituições internacionais de julgamento, como o Tribunal Penal Internacional, o fato é que os recursos de poder (simbólicos, econômicos, militares) dos Estados continuam definindo a relações entre eles. Nesse sentido, a noção de justiça passa a ser compreendida como nada além da ‘vantagem do mais forte’. Como os Estados Unidos são geralmente o país mais forte no pedaço, são eles que definem a noção de justiça. Não por acaso o Presidente Obama, em seu primeiro discurso após o episódio, declarou que a justiça havia finalmente sido feita.

O grande problema ético envolvido nesta história começa pela impossibilidade de se medir o luto individual, pois a guerra invariavelmente faz vítimas que não tinham relação alguma com a situação, faz vítimas inocentes por toda parte. Desse sofrimento nasce a sede de vingança e o anseio pela retaliação. Quando os Estados Unidos optam por guerrear e optam por assassinar ao invés de julgar, eles estão dando o troco na mesma moeda, estimulando o ódio e ampliando o fosso entre árabes e judeus; entre Ocidente e Oriente Médio, entre civilizações.

A forma como se configura a balança de poder internacional, portanto, coloca nas mãos da América o monopólio da definição da noção de justiça. O silêncio dos críticos do assassinato ilegal ou extrajudicial, diante da morte de Osama, reflete hipocrisia e reflete a resignação mundial ao fato dos Estados Unidos serem o atual hegêmona global. Certamente, se alguma facção no futuro retribuir seu sofrimento através do assassinato de alguma liderança dos países centrais, essa ação será classificada como vingança cruel, terrorismo e crime internacional, pois, querendo ou não, é assim que funciona.

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Neste 2 de maio de 2013 os Estados Unidos comemoram o aniversário de 2 anos da morte de Osama bin Laden. 

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4 Comments Add yours

  1. Roberto Moura diz:

    Guerra pra que? Nunca se sabe os verdadeiros motivos da instauração de uma guerra. Ocultam-se os pretextos, sejam religiosos, políticos, bélicos, comerciais e outros. Desde que o homem (no sentido amplo) entende-se com tal a guerra existe, seja para defesa do patrimônio ou simplesmente para garantir a hegemonia. Com o início do sistema capitalista deu-se início ao conceito de desenvolvimento e subdesenvolvimento, ou mais designadamente, países centrais e países periféricos, onde os primeiros exercem funções de patrões, de imperialistas e, os segundos, de colônias, e capitanias, isso é denominado “Marxismo” (fechou o tempo!). A função básica dos países periféricos era basicamente sustentar os países centrais com matérias primas ($$$ PETRÓLEO E ETC…) ou mão de obra. Só que o mundo está em constante mudança e alguns países orientais principalmente, não concordam em ter os EUA como supremacia global. Hoje em dia os conflitos políticos envolvendo os países deveriam ser dirimidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), mas, este é um fato que lamentavelmente não está acontecendo, as guerras inflamadas entre os EUA e países ditos hostis são um exemplo, a ONU embora fundada nos Estados Unidos com iniciativa após a 2º Guerra Mundial, desfez-se de seu projeto original de defesa da paz mundial e no meu ponto de vista tornou-se uma marionete política dos países desenvolvidos, principalmente dos EUA. Osama não foi o primeiro e não será o ultimo, vem por ai uma tal de Coreia do norte. Qual vai ser a desculpa dessa vez? “E agora, quem poderá nos defender?”.

    1. Roberto,
      Você tem razão! Por sorte, as tensões com a Coréia do Norte parecem mais amenas. Por outro lado, a questão Síria/Israel escala para uma deterioração nas relações. Enquanto isso nos Estados Unidos, Obama luta pra fechar Guantánamo… E por aí vai…

  2. Roberto Moura diz:

    Errata: Coreia do Norte!

  3. Roberto Moura diz:

    Recomendo o filme: “A hora mais escura”, do diretor Kathryn Bigelow que narra a epopéia do governo norte americano na busca de Osama!

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