Oportunidade desperdiçada

arma(11)Artigo publicado originalmente no portal barrosoemdia.com.br em abril de 2011

A tragédia que chocou o Brasil essa semana levanta uma série de questionamentos sem respostas. Tentar entender o massacre da Escola Tasso da Silveira em Realengo no Rio de Janeiro não é uma tarefa fácil, pois todos os esquemas interpretativos sobre segurança pública não servem para analisar o caso. O assassino, pelo que se sabe até aqui, não estava sob influência de nenhuma droga, não era uma pessoa violenta, não era traficante, não agiu pelo acerto de contas (…). Apesar de manifestar algum interesse religioso, em especial pelo Islã, não há nenhuma evidência de que os islamitas mais radicais tenham se interessado por ele e que essa tenha sido a real motivação.

A carta de suicídio do maníaco mais parece uma colcha de retalhos de loucuras psíquicas, mais patentemente da psicose. Essa doença se manifesta quando o ego avalia mal a realidade e se permite a descarga de impulsos em condições que colocam a si mesmo, e aos outros, em risco. O indivíduo não tem condições de conter o ímpeto e a violência dos impulsos do id (paixões)[1].

Esse tipo de mal estar psíquico atinge uma boa parcela da população e é muitas vezes agravado por questões do meio social, como discriminação racial, preconceito de gênero e bullying (humilhação comum nas escolas). Apesar de ser obrigação do Estado e de todos evitarmos esses tipos de agressões, é extremamente difícil prever quando atentados como os dessa semana irão ocorrer.

Uma possibilidade seria  tirar as armas de fogo de circulação, pois dificultando ou impossibilitando o acesso às mesmas, surtos psicóticos como esse tenderiam a ser muito menos letais, poupando vítimas e mesmo desencorajando esse tipo de ação. Acontece que a nossa grande oportunidade de banir o comércio de armas no Brasil passou. Desperdiçamos a chance de aprovar essa medida no Referendo de 2005. Para a pergunta sobre a proibição do comércio de armas no Brasil, 63,94% dos eleitores disseram que não, não eram a favor da proibição. Dentre os barrosenses, 57,71% também afirmaram que esse comércio deveria continuar.

É impossível afirmar se um resultado diferente no Referendo teria impedido o massacre na escola em Realengo. O fato é que as armas de fogo continuam potencializando a letalidade em diversas situações do cotidiano. Todos os dias cidadãos comuns, seja em brigas de trânsito, situações de estresse, discordâncias familiares e em muitas outras circunstâncias, acabam utilizando armas de fogo e produzindo danos irreversíveis. Para a psicanálise, todos os indivíduos, mesmo aqueles considerados saudáveis, podem ser acometidos por fortes paixões (ate) que comprometem a consciência, levando-os a comportamentos que normalmente não teriam.

Caso houvéssemos proibido a comercialização de armas em 2005, certamente muitos desses excessos não terminariam em mortes, no entanto, essa oportunidade passou e nós a desperdiçamos. Cabe agora aceitarmos a decisão democrática do Referendo, porém, pensando em caminhos alternativos de legislação para que, evitando a difusão das armas, possamos impedir que brutalidades como a de Realengo possam se repetir no Brasil.


[1] Marion Minerbo in Liberdade e Responsabilidade. Revista da Filosofia, número 28, março de 2011.

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Em dezembro de 2012 um novo massacre escolar na cidade de Newtown, no Estado de Connecticut, nos Estados Unidos voltou a chocar o mundo. O resultado: 28 mortes, sendo 20 crianças. 

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