A Mostra e o Cinema


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Artigo originalmente publicado no Portal barrosoemdia.com.br em janeiro de 2011

A Mostra de Cinema de Tiradentes chega à sua 14º edição e, seguindo a tradição dos anos anteriores, apresenta uma intensa programação repleta de atrações cinematográficas e também artísticas, circenses e musicais.  O evento já se tornou uma das referências culturais mais importantes do Brasil, atraindo participantes e diretores de todos os estados e até de outros países. Esse público tem a oportunidade de debater, participar de conferências, assistir filmes e, de quebra, ainda geram divisas e movimentam a economia local. Para os nativos da região, entretanto, os ganhos em termos culturais ainda são muito tímidos considerando o benefício potencial que um festival como esse poderia proporcionar.

O cinema é antes de tudo uma arte e, como tal, se expressa através de uma linguagem própria. A película está sempre repleta de símbolos e significados que muitas vezes são imperceptíveis para aqueles que não dominam bem esse ‘idioma’. Para decodificar e auxiliar o público geral a percorrer com mais facilidade os caminhos do universo cinematográfico, a Mostra de Tiradentes propõe a realização de uma série palestras e oficinas. Essas iniciativas são importantes, porém geram uma influência apenas residual para a realidade cultural da região. Em primeiro lugar, o público local que consegue participar de tais oficinas é muito reduzido. Em segundo lugar, não se discute em profundidade a possibilidade da criação de cursos e oficinas permanentes na cidade. Por último, os debates e os incentivos correntes ainda não foram capazes de sensibilizar as autoridades, sobretudo nos níveis municipais, sobre a importância de uma política mais perene e profunda voltada ao cinema e à cultura.

A cidade de Barroso é um bom exemplo dessa falta de interesse e descaso. Os cinemas daqui foram extintos há muitos anos e as locadoras de vídeo estão sucumbindo à pirataria. Não se observa a cinematografia sendo utilizada como ferramenta de transmissão e geração de conhecimento pelos professores nas escolas, pelo menos não em escala e qualidade. Em 2008, o audiovisual era utilizado para contar a história dos bairros da cidade no contexto das reuniões itinerantes da Câmara, porém já não é mais. Além disso, em outubro do ano passado foi feita uma indicação pelos vereadores ao Executivo para que a cidade fosse inscrita no Programa “Cinema Perto de Você” do Governo Federal, o qual financiaria a construção de salas de cinema públicas nas cidades do porte de Barroso. As condições eram privilegiadas e as chances eram grandes de se conseguir os recursos, porém a Prefeitura nunca veio a público manifestar maior apoio ou informar sobre o andamento do projeto.

É preciso fazer mais, muito mais. A arte áudio-visual é uma ferramenta muito poderosa no auxílio à compreensão das realidades mais diversas e, quando devidamente difundida, pode ser muito útil nos processos de conscientização e amadurecimento intelectual e cultural dos seres humanos. Vale notar que recursos tecnológicos para sua propagação, na maioria das vezes, são simples, bastando uma TV e um DVD. Falta, no entanto, o investimento público em recursos humanos, para que, assim, a comunidade consiga ampliar os seus horizontes de compreensão do simbolismo da 7ª arte, fazendo do cinema um parceiro na construção de um lugar melhor para se viver. A esperança é de que nos próximos anos a Mostra de Tiradentes, bem como os poderes públicos locais, ampliem o debate e a ação sobre o tema, pois só assim nossa região vai deixar de ser cenário para se tornar protagonista do cinema e da cultura.

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2 Comments Add yours

  1. Poxa Antônio, infelizmente Barroso vem perdendo muitas coisas nos últimos anos, mas o sol vai nascer amanhã novamente e aí, quem sabe, nossos poderes vão aproveitar melhor as oportunidades que vierem juntas com ele.

    Independente do que os poderes fizerem, cada um pode fazer a sua parte até mesmo nesse caso. Como você disse, os professores aproveitarem melhores os recursos que tem disponível e até mesmo os organizadores de eventos exibirem mais filmes e vídeos.

    Tem muitas pessoas que tem oportunidade de ir a grandes centros e até mesmo as cidades vizinhas onde exitem salas de cinema, mas tem outras que nem sequer tem televisores em suas residencias.

    Nesse caso, até um simples Datashow e um lap top já fazem uma grande diferença!!!

    1. É isso aí meu irmão, o sol da cultura ainda vai nascer, mais quente e mais forte, em nossa cidade. Na Mostra deste ano pude perceber que os nossos conterrâneos que aproveitam o evento são sempre poucos, sempre os mesmos… É preciso democratizar o acesso à este universo, torná-lo mais comum para mais pessoas.

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