Reflexões breves sobre a biografia de Getúlio Vargas (Volume 1)

Livro

O livro de Lira Neto é o primeiro volume da biografia de Getúlio Vargas.  O período histórico compreende desde o nascimento (1882) até a chegada ao poder (1930). Considero um excelente livro. O conteúdo é muito denso, porém de leitura bastante fluida. A pesquisa foi muito rigorosa e as informações são muito valiosas para a compreensão das primeiras décadas do Século XX no Brasil, sobretudo o poder e a decadência da República Velha. Os Volumes II e III da biografia devem ser lançados ainda neste ano.

Reflexões

1- GAÚCHO TCHÊ: Apesar das lutas sangrentas e intestinas entre os partidários de Assis Brasil e Borges de Medeiros, Getúlio consegue unir o Estado (maragatos e pica-paus) em torno de sua candidatura à Presidência e, logo depois, pela Revolução. O tempo todo é flagrante o amor dos gaúcho pela terra, a veneração ao hino, à bandeira, às tradições e, principalmente o compromisso cívico. Esse compromisso, apesar dos “desaforos” do Governo Central, não se revelou em aspirações separatistas farroupilhas, mas sim em um senso de responsabilidade para com o Brasil.

No ano passado, em uma reportagem do Esporte Espetacular sobre o Estádio Olímpico os gremistas cantavam uma música gaúcha que parecia bastante popular e que tinha como primeiro verso a exaltação desse compromisso do estado pelo país.

“O meu Rio Grande de encantos mil, disposto a tudo pelo Brasil”

Para acessar a reportagem: http://www.wtfnoticias.com.br/2012/12/reportagem-do-esporte-espetacular-sobre-o-estadio-olimpico-e-torcida-do-gremio-09122012.html

2- CRIMES SEM CASTIGO: Ao longo dos anos de formação de Getúlio o clã dos Vargas, em especial Viriato (irmão mais velho), mas também Getúlio e o irmão Protásio se tornam autores de uma série de crimes que ficariam impunes. Em Ouro Preto, onde estudavam os irmãos Vargas e toda a elite brasileira, a “gangue gaúcha” assassina o jovem paulista da família Almeida Prado. Viriato foge e o pai, Manuel, articula pela a defesa e o abafamento do caso. Nos anos seguintes, outros assassinatos, brigas, estupros e fugas da justiça seguiriam impunes frente as relações íntimas da família com os donos do poder no Rio Grande do Sul.

Detalhe: Hoje, mais de 80 anos depois, toma posse na Câmara um deputado acusado de assassinato: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,acusado-de-assassinatos-toma-posse-na-camara-e-ninguem-da-bola-,980349,0.htm

3- POLÍTICA RESOLVIDA COM VIOLÊNCIA: Impressiona o nível de violência daqueles anos. Era deputado matando deputado; comício que acabava em tiro; Coluna Prestes; milícia tentando tomar o poder nos estados; Governo Federal mandando tropas; João Pessoa assassinado; João Suassuna assassinado; Pinheiro Machado assassinado, por aí vai…

4- IMPRENSA POLÍTICA: O nível de politização e ideologização dos jornais da época era bastante considerável. Os artigos, textos,  opiniões, charges, etc. eram todos muito profundos e repercutiam discursos no Senado e na Câmara, embates e debates. Os jornais possuíam lado e defendiam esse lado, possuíam posições e opiniões sobre a vida política nacional.

5- TENENTES SEMPRE REVOLUCIONÁRIOS: O papel dos Tenentes (Movimento Tenentista) na vida política nacional é bastante relevante. Os expoentes do movimento de 1922 (Siqueira Campos; Juarez Távora e outros) tiveram uma influência considerável na vida política nacional por toda a primeira metade do século, inclusive e sobretudo para a Revolução de 1930 e para o caráter ditatorial que o Governo Vargas viria a ter. Os tentes deram a cara revolucionária e a identidade (legitimidade?) militar  ao processo que levou à tomada do poder.

6- AS ESCOLHAS DE CARLOS PRESTES: O “Cavalheiro da Esperança” havia sido escolhido para ser o General da Revolução. Em 1930, entretanto, ele adere de uma vez por todas ao Comunismo e rompe com Vargas. O próprio Getúlio lamenta o fato de Prestes ter optado por “destruir ao invés de construir”. Um Prestes mais moderado poderia ter dado muitas e boas contribuições para a “questão social”, então (e ainda hoje) na ordem do dia.

7- GETÚLIO COVARDE: O biógrafo ressalta os traços “calculista” e “paciente” da personalidade de Getúlio como fundamentais ao seu sucesso político. É possível perceber, porém, que se não fosse pela insistência do quarteto: João Neves; Lindolfo Collor; Flores da Cunha e Oswaldo Aranha os episódios de 1930 não teriam acontecido. É bastante evidente que Getúlio não queria ser candidato contra o Catete. Após a candidatura, não queria fazer campanha; após a derrota, não quis contestar o resultado; após o episódio de Princesa-PB não quis apoiar explicitamente o Presidente da Paraíba; após a morte de João Pessoa não quis responsabilizar Washington Luís; após a pressão do PRR (Partido Republicano Rio-grandense) não quis tomar uma atitude; após a consulta a Borges de Medeiros, tentou boicotar a opção pela Revolução… Só mesmo quando a luta armada era inevitável, Getúlio embarca no trem para o Rio e para a glória. A sensação é de um personagem boiando no mar dos acontecimentos, lutando para não chegar às areias da praia, porém vencido pela  força de vontade dos personagens que tramaram a revolução e pelo tsunami da insatisfação geral com um Regime que já estava esgotado.

8- ELEIÇÃO 1930, UMA VITÓRIA POSSÍVEL?: Apesar dos reclames de fraude eleitoral, o resultado das eleições foi o mais apertado da República Velha: Júlio Prestes 1.091.709 (59%) – Getúlio Vargas 742.794 (41%). A fraude às atas eleitorais, ato bastante contestato e polêmico, era o último recurso do Sistema pela manutenção do poder. A regra geral do Sistema era uma aliança ampla com as oligarquias locais para o confinamento dos “currais eleitorais”, afinal com o voto aberto essa prática seria relativamente simples. Na campanha de 1930 Getúlio foi um péssimo candidato. Apenas com muito custo foi ao Rio de Janeiro (Distrito Federal) ler a plataforma de sua candidatura. Esse evento reuniu centenas de milhares de pessoas ao ar livre e foi uma grande exaltação, porém foi o único. Ainda no Rio, Getúlio fez uma “visita de cortesia” à Washington Luis, provavelmente para manter as boas relações com o Catete após a derrota certa. Getúlio voltou ao Rio Grande, após uma curta e obrigada passagem por São Paulo, e não fez mais nenhuma campanha. Não se preocupou sequer em fazer uma visita aos demais estados da tríplice aliança: Minas Gerais e Paraíba. Se os planos de realização de um tour de Vapor partindo de Belém e vizitando as principais cidades do Brasil tivesse saído do papel, provavelmente a conquista das oligarquias e, consequentemente, a vitória teria sido possível.

9- HIPOCRISIA, ELES QUISERAM UMA PRA VIVER: Interessante notar como as “convicções” se transformavam aos ventos das oportunidades políticas. Getúlio, que havia sido o cabeça da fraude eleitoral que manteve Borges de Medeiros no Governo do Rio Grande do Sul, que tentou massacrar os revolucionários e que pregava a prisão dos tenentes, converteu-se a troco de reunir os gaúchos ao redor de seu nome na corrida ao Catete. Em meio à pressão dos liberais, Getúlio aceitou empunhar as bandeiras da anistia aos rebeldes, do voto secreto e das reformas judiciais e democráticas.

10- E MINAS, UAI?: Apesar de ter entrado para a história como o arquiteto da Aliança que culminaria na Revolução de 1930, o Presidente Antônio Carlos foi alvo de muitas críticas após a derrota eleitoral. O Estado de Minas marchou dividido nas eleições daquele ano e sobrou ao chefe maior a inglória tarefa de defender um candidato à presidente que não queria fazer campanha. Com a derrota nas urnas, sobrou o ressentimento das lideranças gaúchas com relação aos mineiros. A mágoa, porém, durou poucos meses. Em outubro do mesmo ano mineiros, gaúchos e paraibanos marchariam juntos rumo ao Rio de Janeiro para vingar a morte de João Pessoa e fazer a Revolução. Não custa lembrar que a insistência paulista em romper o pacto do café com leite, ou seja, a teimosia de Washington Luis em lançar Júlio Prestes foi a grande causa dos acontecimentos de 1930. O Presidente brasileiro à época ignorou a opção conciliatória de lançar um nome fora do eixo MG-SP a fim de garantir a manutenção do sistema e a governabilidade.

BRASIL ONTEM, HOJE E SEMPRE: Quando olhamos o Brasil de hoje e comparamos com o Brasil do passado surgem muitas semelhanças e diferenças. Estamos próximos da comemoração de 30 anos de normalidade democrática e as armas, pelo menos por enquanto, não se misturam mais com a política. Além disso, somos uma federação completamente diferente daquela da República Velha, pois o Poder Central de hoje concentra uma parcela muito desproporcional de poder e recursos. A imprensa também muito se diferencia. Entre os jornais totalmente alinhados dos anos 20 e a busca descabida pela imparcialidade absoluta atual, sobra muito pouco ou quase nada. Penso que falta aos jornais e revistas contemporâneos assumirem logo o seu lado político-ideológico, a exemplo do que faz a Carta Capital. Citanto ainda transformações importantes pelas quais o Brasil passou nos últimos 80 anos, temos: industrialização; urbanização; diversificação da economia; estabilidade monetária e econômica; universalização dos Sistemas de Educação, Saúde e Assistência… Por último, uma transformação gigantesca pela qual passou o Brasil de hoje foi o aprimoramento do Sistema Eleitoral. Se os resultados das eleições de 30 demoraram quase dois meses para serem oficializados, hoje não esperamos mais de duas horas.

Apesar das transformações positivas, nossa paciência e nossa esperança continua a ser testada cotidianamente por muitos e muitos personagens de nossa história recente. As afrontas à Constituição, a corrupção e a impunidade são praticamente às mesmas há oito décadas. De pior, temos hoje: violência urbana, desigualdade social, poluição, desmatamento, drogas, genocídio nas estradas…

Para o futuro precisamos romper com uma série de sistemas, tecnologias e regimes que permanecem arraigados e ditando as regras em nossas estruturas sociais, econômicas, políticas, educacionais, ambientais, culturais… Precisamos conhecer o passado para evitarmos os erros e repetirmos os acertos. Existe ainda uma Republica Velha em cada canto do país aguardando uma Revolução. Que as novas Revoluções sejam pacíficas e que nos tragam mais liberdade e justiça social.

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Livro: Getúlio 1882 – 1930 – dos Anos de Formação à Conquista do Poder

Autor: Lira Neto

Ano de Edição: 2012

No de Páginas: 624

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4 Comments Add yours

  1. “Getúlio (1882-1930): dos anos de formação à conquista do poder”, de Lira Neto: o retrato fielmente documentado da primeira fase da vida privada e da trajetória política de um dos homens mais argutos, hábeis e complexos da história brasileira, um ser capaz, como nenhum outro, de dominar a dificílima arte de aguardar o momento certo para agir, dissimular com maestria, manipular vaidades, expectativas e planos alheios, defender com veemência uma ideia e depois o seu contrário.

    A leitura desse primeiro volume é uma aula de história e política, mostrando os bastidores do poder na República Velha, o ambiente conflagrado do Rio Grande do Sul, as tramas políticas do Catete, o comportamento da elite gaúcha que orbitava em torno de Borges de Medeiros (Getúlio, Oswaldo Aranha, João Neves da Fontoura, Batista Luzardo, Lindolfo Collor), as tentativas de insurreição armada contra Epitácio Pessoa e Artur Bernardes, o pano de fundo das eleições presidenciais de 1929 e todo o complexo jogo de poder que levou o País à Revolução em outubro de 1930.

    Vale a pena a leitura, especialmente porque nos fornece subsídios para compreender o que viria depois – O Estado getulista ou Era Vargas – com implicações políticas e institucionais que influenciam o país até hoje.

  2. Enrique, tem toda razão. A leitura nos ajuda a compreender o Brasil e a América Latina de hoje. Persiste a herança Varguista, sobretudo na tentativa de internalizar e mediar os conflitos da sociedade via Estado; intervir na economia; criar mitologias ao redor da figura do líder; manipular o sentimento nacionalista; jogar ora contra, ora com a imprensa; garantir favores aos amigos e perseguir os inimigos…

  3. Manoel Santana Xavier (Registro -SP 1957) diz:

    Fui aluno do professor de francês, Antonio Claret Lira. Por acaso te encontrei.Gostaria de saber como ele está.

    1. Olá Manoel, desculpe-me. Não conheço o professor Antônio Claret Lira.

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