Pela paz, não devemos seguir admitindo

no rape

Apenas três dias separaram o caso do abuso e morte da jovem barrosense Eloíza (19/12) do caso do estupro e morte da jovem indiana (16/12). Apenas dois anos de idade separam as duas jovens, de 21 e 23 anos, respectivamente. A proximidade entre os dois casos, entretanto, para por aí.

Na Índia, o caso do estupro chocou a sociedade a ponto de provocar protestos de massa para cobrar providências e mais segurança das autoridades locais. Milhares de pessoas foram às ruas de Nova Déli em passeatas enérgicas para exigir um basta. A mobilização social surtiu efeitos positivos. Os suspeitos foram rapidamente detidos e o parlamento indiano já começa a discutir alterações na legislação com o objetivo de elevar a punição para esses atos de extrema covardia. Os protestos tiveram impacto até mesmo nos recantos mais longínquos do país. Na província de Punjab dois policiais que estavam prejudicando e atrasando deliberadamente as investigações de casos de estupro na localidade foram afastados da corporação.

Em Barroso a história foi diferente. Apesar dos mais de 10 mil acessos à notícia do crime no portal barrosoemdia.com.br, apenas 20 pessoas demonstraram sua indignação por meio de comentários na página do jornal no facebook e apenas 40 compartilharam a notícia (https://www.facebook.com/#!/barrosoemdia?fref=ts). Saindo do universo virtual, apesar da inevitável polêmica, nenhuma manifestação, nenhuma cobrança, nenhum comentário das autoridades. Até hoje, passados 15 dias do crime, pouco ou quase nada se sabe sobre a perícia e sobre as investigações a respeito do abuso e morte da jovem Eloíza.

No caso indiano, aquele estupro foi como uma gota d’água. Em um belo artigo publicado no The New York Times nesta semana, a escritora indiana Sonia Falero relata sobre o terror e a insegurança das mulheres em Nova Déli:

Enquanto adolescente, eu aprendi a me proteger. Eu sempre evitei ficar sozinha e caminhava rapidamente, cruzando meus braços sobre meus seios, evitando qualquer contato visual ou sorriso. Eu evitava sair de casa à noite, exceto de carro. Em uma idade onde as garotas em todas as outras partes do mundo estavam experimentando novos e ousados visuais, eu usava roupas duas vezes o meu tamanho. (Até hoje) eu ainda não consigo me vestir de forma atraente sem sentir que estou me colocando em perigo.[1]” (Sonia Falero, NYT, 2013)

Diferente dessa realidade dramática, em Barroso, as garotas ainda experimentam uma enorme liberdade de expressão e razoável sensação de segurança. Para que a liberdade continue a prevalecer, no entanto, é fundamental que a sociedade não perca a capacidade de sensibilização e indignação diante da barbárie. Em meio às repercussões, além de não se ver nenhuma manifestação, houve uma perigosa dose de conformação, não faltando quem observasse o acontecimento como um efeito colateral (inevitável?) dos processos de transformação e crescimento da cidade, os quais – diga-se de passagem – ainda nem sequer foram iniciados pra valer.

Não custa lembrar que esta é a segunda vez que um assassinato com requintes de crueldade e marcas de violência sexual acontece na cidade no passado recente, primeiro a criança do bairro Jardim Bandeirantes e, agora, a jovem do bairro João Bedeschi. Não se incluem aí os casos de violência doméstica, abuso sexual, violação de direitos e humilhação pelos quais as mulheres barrosenses e brasileiras passam quase que cotidianamente. Para evitar uma nova tragédia e transformar este panorama é fundamental que haja mais consternação, indignação e mobilização social.

O caso da menina Eloíza poderia e deveria ter sido evitado. Essa selvageria não faz parte da normalidade da cidade e é preciso que todos entendam isso. A expansão ou qualquer outro processo de mudança social não precisa trazer consigo mais violência. Se a população não se mobilizar agora, não exigir mais segurança das autoridades, corremos o risco de naturalizar esses acontecimentos e conviver com este e outros tipos de crimes. Na Índia, foram necessários anos de violência sexual para que as pessoas começassem a agir. Em Barroso, é preciso que se diga, em alto e bom tom, um imediato “basta”.

—–

[1] As a teenager, I learned to protect myself. I never stood alone if I could help it, and I walked quickly, crossing my arms over my chest, refusing to make eye contact or smile. I cleaved through crowds shoulder-first, and avoided leaving the house after dark except in a private car. At an age when young women elsewhere were experimenting with daring new looks, I wore clothes that were two sizes too large. I still cannot dress attractively without feeling that I am endangering myself.

Anúncios

Obrigado pelo seu comentário!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s